quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A vindima de Augusto Mayer (sonetos)




A vindima de Augusto Mayer (sonetos)


Gota a gota a luz da vida alimenta minha alma, desde os dias de dormência, aridez e monotonia do mês de Agosto. Pouco a pouco, mês a mês, ano após ano, o sol de Deus, do mundo e da vida, com suas alegrias e tristezas, vão me nutrindo e podando conforme os ciclos do viver e saber, em ritual de amadurecimento para os novos tempos que se anunciam.

Nessa caminhada, quebrada a dormência do outono, entre picos e vales, entre sombras e clareiras, minha alma saboreará gostos e beijos, ora doces, ora amargos, anunciados pela aurora e o anoitecer de um novo tempo: seja na mansidão de mais um dia de vã labuta, no rubor de um breve período de clamor ou num longo ano de espera e dedicação, até o momento da vindima. Momento de saborear a cor e o gosto maduro da uva in natura (bem como aspirar o aroma penetrante de bagas esmagadas). Desenlace de uma rotina de horas de sono (e despertar) que parecia não ter fim, pois são,

Horas que se esquecem das horas...Até o dia da vindima.

A quem provou o seu dia de vindima, grato nos é cada dia de sonho e frustrações, lembranças e esquecimento. A cada momento de uma abertura porosa da alma, receptiva e amorosa aos ventos e rubores do alvorecer de um além que se aproxima, o fermento e o tempero concrecionado pelos ingredientes de prazer e dor no momento seguinte, em novos ciclos de riscos e oportunidades, temores e deslumbramentos. No limiar, nova sombra que nos conforta (ou apavora), anuncia (ou encobre), ainda do alto, novas moradas que se aproximam a desanuviar as arestas e fendas de minha sina; depois, seguindo mais abaixo, fiel até o fim da estrada tomada - ou aberto àquela outra ali do lado; são densas vivências humanas a seguir.

Doces lembranças fixadas, tristezas inconsoladas esquecidas?

Não importa. Saudades assim não se chora mais. Ao contrário, seguirei sereno, nem bom nem triste, até mesmo cantando o mal vivido. Que tudo se repita e se reconfigure. E então,

Após a vindima.... que as horas voltem sempre as mesmas horas.



BSB, 30 de agosto de 2014.

MCMV

Espiritualidade: uma contabilidade para o corpo e a alma




Contabilidade do corpo e da alma para fumantes cristãos




Certamente Deus deve torcer o nariz cada vez que um filho amado seu introjeta, rotineirmente, centenas de substâncias em seus pulmões e sistema circulatório. Mas, ao contrário do que professa a Anvisa (“não existe nível de segurança para o consumo deste produto”), não daria a mínima para uma fenomenal baforada, bem tragada, como aquela famosa de Winston Churchill, comemorando o fim da Guerra contra Hitler.

Diria até: comemorem sim, aproveitem ainda mais e abram aquela garrafa de vinho precioso que vocês conseguiram salvar da fúria nazista (afinal Ele mesmo, quando quis, cuidou de garantir o consumo de vinho em Canaã, e ainda pelo recurso do milagre...). Deus, como qualquer médico sincero, sabe que existem sim algum nível mínimo de “segurança” ou ao menos razoabilidade de consumo do tabaco, assim como do álcool.

Entretanto, como estabelecer o critério entre satisfação e abuso? Outra, não há um meio de compensação para os mais abusadinhos, digamos, que consomem meio maço de tabaco por dia? Considerando, por exemplo, que uma das maiores causas de morte no Brasil são oriundos do sistema circulatório e do coração, uma das melhores medidas preventivas do brasileiro médio não seria a atividade física? Bem, esta pode ser facilmente mensurada pelo consumo de calorias.

Pensando nisso fiz um acordo de cavalheiros com Deus e bolei uma contabilidade simples, simbólica até, mas que me ajudasse a me monitorar a saúde do corpo no cotidiano.

Atualmente frequento a academia 3 vezes por semana, 1 hora cada, totalizando 3 h, o tempo que disponho normalmente. Como já tenho 50 anos, minha prioridade não é musculação e sim condicionamento físico então, quando não nado (o ideal!), dedico 50% desse tempo nas esteiras e bicicletas gastando cerca de 210 calorias. Supondo um consumo “moderado” de 7 cigarros por dia pudesse ser compensado, tem-se 49 cigarros/semana ou 16 por sessão. 210 dividido por 16 ,e dá a cota de 13 calorias/cigarro ou cerca de de 2 minutos (30/16) de caminhada adicional. Sei que não é grande coisa, poderia facilmente chegar a 300 calorias. Importante nesse raciocínio é que, para cada cigarro além dessa cota “razoável” deve me acionar um alerta amarelo para voltar à cota normal, sob pena de ter de aumentar o gasto do excedente em termos de calorias. Se tiver tempo, bem, senão, “castigar” mais no esforço físico, ou melhor, partir para a natação.

O simbolismo do castigo aqui serviria para maneirar o hábito e contrapor este “mau” hábito com outro saudável. Observo também o quanto a natação me faz bem, inclusive eliminando parte expressiva da ansiedade do dia a dia, causa elementar de todo fumante.

Convenhamos, a ansiedade, o stress e a vida sedentária hoje em dia são uma das principais causas de problemas cardíacos e também do câncer. E tem muito ativista antitabaco “compensando” suas angústias rotineiras comendo calorias demais e gastando calorias de menos. Cadê a “contabilidade” de saúde deles?

O fato é que não existe segurança física ideal para o homem. Podemos morrer de um entupimento repentino das veias sanguíneas, de um acidente de carro ou de erro médico e até de uma enfermeira incompetente.

Que dizer de nossa alma eterna?

Dizem que Cura D´Ars viveu uma vida totalmente sedentária, pois não tinha tempo para atividades físicas, atendendo confissões até 8 h por dia, entre tantos outros compromissos paroquianos!

Em nossa realidade bem atual, temos o belo exemplo de Vassula Rydem. Vassula é uma cristã ortodoxa que tem o dom de alocução interior com Jesus, i.e., ouve claramente vozes e mensagens Dele e as anota periodicamente. Já escreveu mais de 10 livrinhos intitulados Vida em Jesus. Curioso é que, pouco antes de se converter a Cristo – era agnóstica, muito bonita e metida socialite, Vassula foi vice-campeã nacional de tênis, uma modalidade de esporte que exige preparo físico para lá de perfeito! Desde então ela largou tudo isso e hoje vive de divulgar o evangelho em todo o mundo bem como a dificílima proposta de semear a concórdia entre milhares de milhares de católicos e ortodoxos, sob o salvaguarda de uma única cabeça (o papa católico), conforme ordem de Cristo no evangelho. Sem tempo algum para cuidar fisicamente de si própria.

Desde então vem sendo sistematicamente perseguida tanto por parte do clero católico “moderado” como, principalmente, pelos ortodoxos que vivem só de comer na mão de aço de Putim e seus acólitos. Entre outros, despertou inimizade de praticamente todo o bispado ortodoxo e principalmente do tal Alexander Dugin, nada menos que principal assessor “religiosode Putin. Duguin é mentor da união entre ortodoxos e mulçumanos, não pela união ecumênica ou algo que o valha, mas contra todo o Ocidente, visando o ambiciosíssimo projeto de expansão e domínio Eurasiano. Isso ficou claro no seu debate com o Olavo de Carvalho em 2012. Recentemente, na qualidade de professor universitário russo, sugeriu uma verdadeira jihad contra a “rebelde” Ucrânia, considerando-os “desumanos”.

Dá para imaginar o grau de virulência desses contra o apostolado de Vassula?

Daí, quem fica melhor na “contabilidade” da eternidade de Deus?

Rydem está garantindo, com segurança, sua morada no paraíso, já nós, míseros pecadores da geração saúde e bem estar... só nos entregando para o mar da misericórdia de Deus!

Ajuda muito também certa contabilidade espiritual difusa mas efetiva: jejum, oração e esmola.


Brasília, 31 de agosto de 2014.

MCMV


segunda-feira, 7 de julho de 2014

história e a utopia dos poderosos




Homilia do Padre Mário, de 6 de julho de 2014 (Mt 11,25-30)

adaptado por Murilo Carlos Veras

tema principal: história e a utopia dos poderosos

O jogo de futebol visa ao divertimento e como jogo coletivo exige regras a serem seguidas. A truculência de um jogador como o que lesou as vértebras de Neymar nesta Copa é demonstração do quanto o poder da força bruta pode estragar tudo. Poder, por definição, é algo que impõem uma força superior sobre outrem. As regras fazem parte da sociedade na medida em que as pessoas não saibam fazer uso de sua liberdade em uma coletividade. De certa forma a vida é um jogo. Regras em nossa vivência diária são necessárias e devem ser seguidas nos mais diversos campos, inclusive no âmbito religioso*. Mas uma coisa é regular a vontade egoísta das pessoas na medida desse egoísmo, outra é imaginar sociedades utópicas em que todos tenham que ser regulados pela medida do consenso de um grupo, mesmo que seja de uma maioria. Na História, maiorias também erram na apreciação dos valores em jogo pois o critério de avaliação pode estar errado e hoje sabemos muito bem quantos erros monumentais têm sido cometidos em nome da maioria. O critério somente pode ser a da Verdade, que segue de acordo com a natureza das coisas, a começar pela natureza do homem, a lei de sua natureza. É algo que se aprende desde pequeno.

Ocorre que hoje desde criança somos desvirtuados da verdade. A manipulação das consciências começa pelo distanciamento dos fatos reais, intencionalmente promovidos no jogo de poder dos meios de comunicação, mesmo que pela via do entretenimento, por brincadeira. Em programas de auditórios, costuma-se usar atores para, por exemplo, simular deficientes cadeirantes que irão surpreender pessoas de boa vontade que doam esmolas na rua. Ora, uma vez desmascarada a farsa, a tendência dessas pessoas é ficar descrente e acabar por deixar de doar daí em diante. Passam a enxergar, nas próximas ocorrências, possibilidades de má-fé maiores que as reais, i.e., uma percepção de realidade aparente que, com o tempo, pode acabar por se concretizar mesmo. Elas vão se fechando e se auto justificando para não se passarem mais por “tolos”. Percepções distorcidas como essa já começam na educação escolar quando não se dá o devido valor aos agentes da história como os heróis de guerra [como a do Paraguai], de grandes empreendedores [como José Bonifácio e Visconde de Mauá] e se superestima o poder dos poderosos [imperialismo inglês, etc., etc.]. Assim, da educação escolar até a politica hodierna, vão dando a sensação de “natureza desvirtuada” da maioria ou das autoridades constituídas. Se o outro é apenas mais um desses, então o negócio é mesmo cada um defender seus interesses no jogo de poder e compensação financeira.

Essa situação se propaga em toda a sociedade. Colaboram muito os intelectuais que enfocam aspectos negativos da natureza humana e justificam ideologias corretivas concomitantes. À medida que vão se distanciando da Verdade, passam a criar suas verdades maquiadas, formas de pensar a história que não passam de virtualidades na mente de supostos sábios da modernidade, coligadas com interesses de um grupo em detrimento de outro. Quem mais perde são os pequenos, os que se mantêm fiéis à realidade percebida espontaneamente, independente de maquinações, seja do relacionamento amoroso de uma mãe ou de um sacerdote em missão evangélica. Aos poucos, quase sem perceber, o antinatural se faz o “normal” e os pequenos ''fracos e ingênuos” vão se tornando literalmente escravos dos mais “fortes e espertos”. Vemos um mundo de utopia como a de George Orwel, em seu 1984, ou de Aldous Huxley, em seu Admirável Mundo Novo, se tornar realidade, fazerem história!

A escravidão de nossos dias é sutil, quase não é percebida, mas está aí. Os sábios e entendidos de hoje como de ontem sempre se arrogaram os experts da sociedade, mentores de uma concepção de “normalidade” de um mundo mais “realista” com a condição “maligna” do homem e seu “gene egoísta” para justificar formas mais sofisticadas de poder e controle social, acabando por inibir o autocontrole e a criatividade, somente possíveis pela espontaneidade.

Os pequenos de ontem como de hoje sabem conviver com as adversidades e também as oportunidades e riquezas da vida, à medida que desenvolvem capax Dei, não se apegam ao poder e vivem o exemplo do Evangelho [desde uma mãe do lar, até intelectuais de alto gabarito como um Chesterton**]. A espontaneidade surge naturalmente com os valores cristãos de fé, esperança e caridade.

Essas coisas não servem para a maioria dos intelectuais e poderosos de hoje. Constroem ideais utópicos impraticáveis e são como animais instintivos disputando poder: um dia cairão em sua própria armadilha mundana. Porque os verdadeiros valores não provêm do mundo e sim da transcendência. Ao longo da história eles são propositadamente escondidos pelo Pai, que está nos céus. Ao fim e ao cabo, os expertos [pobres ou ricos] carregam os maiores fardos em sua escravidão [idolatria], ao passo que os mansos e os humildes certamente terão o seu, leve e paulatinamente, mas conquistarão céus e terra.

Murilo Carlos Veras

(interpretação livre, sem consulta do autor da homilia)

* Segundo Mario Ferreira dos Santos, a essência da autoridade está na busca do bem comum mas, conforme Tomas de Aquino, aspectos acidentais inevitavelmente produzem as arbitrariedades dos poderosos em todos os âmbitos da sociedade. A autoridade costuma ser contestada de forma leviana até mesmo entre os fiéis católicos. Quem conhece as homilias do pde Mario sabem da importância do respeito a autoridade e às regras da Igreja, que pode ser estendido para as demais autoridades civis desde que os princípios essenciais não sejam violados. Seja pobre ou rico, a história tem demonstrado que as melhores conquistas da humanidade partiram da sabedoria e espontaneidade das relações entre os homens.

** Chesterton foi um intelectual católico de grande repercussão entre ateus e religiosos em geral e notabilizou-se pela profundidade de sua filosofia em base sólida cristã e em exemplo de vida humilde em autêntica sabedoria, dando exemplos de conduta a partir da percepção do senso comum das pessoas.

 
Evangelho do dia:
Naquela ocasião, Jesus pronunciou estas palavras: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Vermeer: Master of Light (COMPLETE)


Paletas - O Astrônomo - Johannes Vermeer


O reencontro de almas gentis no assento etéreo - comentário de Camões


Camões


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etério, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou. 




O reencontro de almas gentis no assento etéreo.


Em Bocage nosso ser, apesar de essencial, se evapora numa vida insana, e momentos curtos de sabedoria valem mais que muitos anos da lide existencial. 

Em Camões a memória dessa existência se conserva peremptoriamente na lida cotidiana, seja do triste ou do mais ardente. Assim, não é possível remediar a mágoa de ver a vida de uma alma gentil partir abruptamente nem esquecer as dores da ausência de um ente querido com as perdas dai decorrentes.

Mas, se uma vida encurtada provoca perdas aqui na terra, os ganhos de eternidade desde sempre superam essa vida relativa - e mormente efêmera e descontente, entremeada por lembranças majestosas e efervescentes; e, em Deus, toda a perda se converte em ganhos no assento etéreo.

Nesse ambiente, o reencontro de almas gentis é o renascer para o repouso na eternidade do Céu. Então, como no Bocage tardio, mais vale a espera salutar de um momento de glória que o consumir de anos em remediações vãs em nosso pequeno barco a verter os mares do mundo insano. Enquanto este dia não chega, se alguma dor ou lágrima se aproveita, resta esperar.

Não a espera morosa, ociosa e ufana, um mal que desde a origem sucumbente à natureza escrava, e sim o esmero para o Encontro em el día del último viaje. O cuidar de tudo que é essencial, realística e habilmente, do ser tal e qual somos, ora abismados, ora quase imortais, dentro de nossas possibilidades, vale dizer, casi desnudo, como disse e fez Antônio Machado....

"a bordo de la naveligero de equipaje como los filhos de la mar".  


quarta-feira, 5 de março de 2014

Longe demais para desistir de quem somos


Longe demais para desistir de quem somos

Um visão poética e simbólica da música
Get Lucky, do grupo de rock Daft Punk.


Imagine a origem de cada ciclo de conquistas que o homem alcançou, de como a  inventividade, a criatividade e a tenacidade de homens e mulheres de todos os tempos foram capazes de erguer línguas, culturas, monumentos – dos belos obeliscos às catedrais, expressões literárias e simbólicas magníficas, tudo ao seu tempo. São  grandiosas obras e legados transmitidos ardorosamente para os ciclos seguintes até chegarem aos nossos dias.

Imaginemos ainda que cada um desses ciclos de certa forma cumpre um grandioso ciclo orquestrado desde as raízes do Universo e do Planeta, para toda a Humanidade, a partir de sua raiz mais primitiva,

Like the legend of the Phoenix.

Desde então nosso adorável planeta, tão carinhosa e meticulosamente engendrado para a vida em abundância – das distâncias milimetricamente satisfatórias às frequências precisas do espectro magnético entre a Terra e o Sol, pelo Deus criador; continua girando sob o fluxo da energia do astro rei, que todo dia nos faz lembrar

The force of beginning
What keeps the planet spinning

Então constatamos que chegamos muito longe. Tão longe. Longe demais,

To give up who we are.

Seria possível desistir (give up) de nossa caminhada depois de tanto? Ou será, na verdade, questão de voltarmos a descobrir quem realmente somos, a busca do nosso quid est, o que é das coisas, do clássico discurso filosófico?

Com essas três singelas evocações o grupo francês Daft Punk concebeu uma das musicas mais badaladas dos últimos tempos. O ritmo frenético esconde um pouco o seu tom poético, mas não é difícil de ser percebido, mesmo para os eternos estudantes intermediários de inglês como eu mesmo. Muito mais que entes vagantes, nós somos, carregamos a imagem daquele que é, porque Ele é aquele que é, desde sempre. A poesia embutida numa balada de rock, querendo ou não, lança a questão do ser no tempo, e repete, à exaustão, sem cansar, a mensagem de nossa sorte extraordinária:

I'm up all night to get lucky

Pensando bem é verdade. Se os dias que Deus nos dá são belos, ainda que com todos os ardis e lutas, ao chegar à noite, temos tudo para dar as graças a esse demiurgo da águia criadora, fonte das fontes incansáveis a renascer das cinzas, do barro ou do sêmen original. 

Valido, sobretudo, pela gratuidade e liberalidade do intelecto rei que governa nossas ações e vontades.

I'm up all night to get lucky

Somos o que somos. E podemos ainda ser muito mais do que temos sido, ou reconhecido em nossos antepassados. Desde um pai Abraão até um Padre Pietralcina, um Chesterton ou um Mário Ferreira dos Santos.

Celebremos sim nossa sorte.

Amém.


Murilo Carlos Veras

Brasilia, 04 de março de 2014.

terça-feira, 4 de março de 2014


OSCAR 2014 :  UMA  AVALIAÇÃO

OU APURAÇÃO DE RESULTADOS?

 
                                               Murilo Moreira Veras

 

Esse evento cinematográfico considerado o  mais glamoroso do planeta – a entrega do Oscar – cada ano parece mais descaracterizar-se como uma celebração do cinema-arte. Não foi diferente a festa deste ano, quando da premiação dos filmes de 2013.

Sempre nos indagamos qual a razão de um evento destinado a premiar os melhores filmes do ano tem necessariamente de ser um engodo de celebridades, transmitindo glamour, fazendo charme, atrizes fazendo fricotes e agora essa nova novidade, fingindo queda no tal tapete vermelho. Aliás, por que tapete vermelho e não azul ou amarelo?

Que valor tem para o público cinéfilo e mesmo o comum frequentador de cinema que uma atriz toda esplendorosa feito uma gata no cio caia no tapete vermelho ou finja cair?

Isto do ponto de vista do espetáculo em si, do showbusiness, como soe convir a todo evento que se quer celebratório. Mas por que o exagero, a proliferação do estapafúrdio, dessa quantidade de jornalistas e comentaristas, o mais das vezes expelindo tolices, falando sobre futilidades? Parecem mais uma trupe de gralhas falantes, trocando loas uma às outras?

Querem ver alguns fatos curiosos e sacadas absurdas que ocorreram neste Oscar 2014?

(a) A apresentadora oficial – Ellen DeGeneris – aparece de terninho masculino o andar de homem e conta piadas agressivas que mais constrange do que diverte o público. Aliás, diga-se de passagem, a plateia parece constituída de pessoas de miolo mole, aplaudem por qualquer coisa, uma bestiologia qualquer, como acontecia, anos atrás, com as piadas infames de Bob Hope.

 

(b) A certa altura ela faz trocadilho com o filme Hunger Games, enquanto avisa que os convidados estão morrendo de fome e logo aparecem garçons oferendo pizzas, que – pasmem – são devoradas ali mesmo, um dos distribuidores o celebrado Brad Pitt que, pouca gente sabe, começou a vida entregando pizza nas residências.

 

(c)  Certa comentarista refere-se a uma atriz que “está de gravidez discreta”, como se houvesse gravidez indiscreta.

 

(d) Outra insinua maldosamente que o vestido de outra atriz está aparecendo o sovaco.

 

(e) Uma dessas gralhas, brasileiras, por sinal, comenta, dizendo-se fã inconteste do cômico Jimmy Carrey e sai com esta: “...o que aquela boca não deve fazer.”

 

(f)  Outra jornalista, com venenosa insinuação, indaga da Ellen, que todo mundo sabe vive com uma companheira: “O que vocês vão fazer depois do Oscar? Resposta da Ellen: “Vou pegar umas festas por ai...” E depois das festas?  Insiste a outra: E Ellen sempre com aquele seu jeito de metrasexual: “...Vamos para a cama, pois tenho de fazer um programa bem cedo.”

 

Não há negar: a festa do Oscar está cada vez mais desinteressante, mais para portal de propaganda comercial e exibição de alta moda do que uma celebração do cinema como arte e diversão. Ademais, para que realmente se constitua tal teria que ser totalmente reformulada. O cinéfilo, os frequentadores assíduos da sétima arte, a rigor não se interessa por vestido de atriz, penteado de cabelo, smoking desse ou daquela feitio, fricotes de mulheres com egos inflados, grávida discretas ou indiscretas. Nós que amamos e cultuamos a arte cinematográfica como gênero de cultura, arte e lazer, tal como o são a literatura e o teatro, na verdade  queríamos ver no Oscar era mais informação sobre essa arte, encontros, debates, uma assembleia de alto nível, tendo o cinema como tema recorrente. Como não bastasse, os filmes do ano deveriam ser eleitos pelos cinéfilos e não por uma comissão secreta de nefelibatas milionários, magnatas donos dos grandes estúdios e distribuidoras, em escolha secreta, às vezes totalmente descabidas.

Por que, por exemplo, um filme magnífico como Gravidade com sete prêmios técnicos não foi considerado o melhor filme, perdendo para 12 Anos de Escravidão, óbvio demais, espécie de carta marcada? E mais: o O Grande Gatsby ganhou duas estatuetas – melhor figurino & direção de arte – enquanto O Lobo de Wall Street e Philomena não levaram nenhuma?

É por essas e outras que o Oscar resvala para a mediocridade e perde, assim, em conteúdo e qualidade.
Bsb, 4.03.14   

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ATENAS BRASILEIRA: O MITO
    DA CIDADE  ERUDITA

                                                  

Ao transpormos o limiar do terceiro milênio, quando vivemos o clímax da “Era da Incerteza”, sob o jugo da televisão e da desenfreada globalização, como que observamos a cultura em nosso País perder terreno a olhos vistos.
Apesar dos esforços e empenho da chamada frente intelectual e dos programas criados e desenvolvidos, na área pública e privada, de incentivo ao bem cultural, parece que continuamos engatinhando em termos de um projeto intelectual de grande porte. O resultado está: um País com alto índice de analfabetismo, que se ressente ainda de uma política construtiva de fomento à ciência, onde a pesquisa é empírica e a tecnologia não consegue produzir uma aplicação eficiente, com resposta rápida e adequada à geração do progresso no País.
Fica a impressão de que nossa inteligência não se acha ainda à altura do progresso merecido. Desafortunadamente, esperamos que a técnica nos caia do céu, esquecidos de que ela, também, a técnica, na realidade, não passa de umbem cultural”, disfarçado em engenhosidade humana. Como tal, precisa de incentivo e cuidadoso cultivo.
Com a supremacia hoje da matéria sobre o espírito, com a supervalorização do econômico como sinal de riqueza e prosperidade da nação, cada vez mais suprime-se a cultura do planejamento político devido sua notória inutilidade. Um indescritível contra-senso, como se se pudesse progredir, sem pensar. Agir sem primeiro saber porque, nem para que.
O assunto vem-nos à baila, ao observarmos o maltrato que sofre hoje nossas grandes metrópoles, cada dia mais inchadas de moradores migrantes, que para elas aportam, na esperança de uma vida melhor. E dizer que no passado uma dessas cidades ousou merecer o epíteto de “ATENAS BRASILEIRA”.
No  Brasil, sua ATENAS poderia muito bem ter sido instalada na então capital federal, o Rio de Janeiro, onde se encontrava o conciliábulo da inteligência imperial. Também podia ficar no pioneiro refúgio dos magnatas portugueses, a Salvador do Boca do Inferno e Castro Alves. Podia perfeitamente localizar-se no Nordeste, incorporando a rebeldia pernambucana nos canais semi-venezianos de Recife. Ou nas areias da Fortaleza alencarina.
Paradoxalmente, nenhuma delas reivindicou para si o famoso epíteto. Coube à província do Maranhão fazê-lo. Por que o privilégio? Afinal o que fez o Maranhão, ou melhor, a cidade de São Luis, para tornar-se a capital da inteligência nacional, em lugar de outras até mais bem evoluídas?
Deveu-se o fato unicamente ao inusitado brilho e fulgor com que a inteligência maranhense cintilou em determinado período da história brasileira. Graças unicamente ao fastígio a que chegou a cultura maranhense nos anais da cultura nacional. Deveu-se sem dúvida à culta pena de João Francisco Lisboa, ao destemor de Sotero dos Reis, à latinidade de Odorico Mendes ou à lírica erudita de Gonçalves Dias. Mais tarde, na preservação do lume helênico, nova plêiade se agiganta com Coelho Neto, Humberto de Campos, Arthur Azevedo, Aluízio Azevedo, Adelino Fontoura, Trajano Galvão, Antônio Lobo, Nina Rodrigues, Fran Pacheco, Souzândrade, Maranhão Sobrinho e tantos outros mais.
Mas, será mesmo que o Maranhão, outrora berço de cultura e espantoso progresso, como se depreende de sua história, soube preservar tal fastígio de glória?
Oxalá pudéssemos dizer que sim. Como tudo o que ocorre neste país. Oxalá pudéssemos constatar, também nas plagas maranhenses, a prevalência da cultura, a supremacia da inteligência sobre a mediocridade. assim conseguiríamos superar o cáustico, mas verídico prognóstico de Rui Barbosa... “de tanto ver triunfar as nulidades...”
É evidente que a cultura maranhense não morreu, como ainda não feneceu a inteligência pátria. A cultura de um povo jamais se há de apagar. Há de sempre surgir abnegados. Pessoas que acreditam que nem de pão vive o ser humano, que é preciso sonhar mais alto, alçar vôo acima dos plátanos e não somente rastejar, à busca do “de comercotidiano.
É neste ponto que relembramos a década de 50 como uma espécie de repositório, ou depositário de um resíduo cultural que paradoxalmente teima em resistir, em meio à borrasca do marasmo intelectual, ao sabor da apatia reflexiva que reina nos dias que correm.
Esse o fiapo de memória que procuramos vivenciar dentro do contexto da cidade de São Luis dos anos 50. A cidade gonçalvina que elegemos para encarnar o Mito da Cidade Erudita.
Nessa época, havia um clima de estudo e erudição, até hoje insuperável. Podia-se sentir que o maranhense respirava o saber. Era nas salas de aulas, nas bibliotecas ( havia mesmo uma, a Pública, denominada o “Bolo de Noiva”, devido sua arquitetura estilonouveau”). Foi nesse ambiente que se influenciou toda uma geração. Dava gosto ouvir-se fora do Maranhão o dizer-se: “É onde se fala melhor o Português.”
O maranhense ganhou fama nos concursos, nos quais via de regra obtinha sempre altos graus, notadamente os do Banco do Brasil. Era a geração que procurava seguir os padrões da ATENAS BRASILEIRA.
Não terá sido uma espécie de último esgar literário de uma geração em compasso de agonia? Não será que o País viveu nos anos 50 essa espécie de estertor cultural, que se refletia também na cidade que reivindicara para si no passado o título de ATENAS BRASILEIRA?
Sim, porque o Mito da Cida Erudita — de que a pequena São Luis se investiu naquele tempo — parece ter sido tão fugaz como o de todas as outras cidades que também abrigaram, em suas ruas, seus colégios, suas academias, seus jornais, suas famílias, poetas, escritores, professores cientistas, pesquisadores, médicos abnegados, advogados competentes, filósofos, pessoas de notório saber.
Sem esses abnegados, desprezando-se a cultura, o saber como se vem fazendo, destruindo-se o amor às nossas coisas pelo culto ao irracionalismo da prosperidade vazia, fica muito difícil construirmos uma nação que tenha por ideal a sabedoria de ATENAS.
Quando muito não passaremos de uma medíocre APENAS  o país onde, por ironia do destino ou mera casualidade, uma de suas cidades ousou, em determinado tempo histórico, cognominar-se a ATENAS BRASILEIRA, devido ao desassombrado grupo de intelectuais que em seu berço prosperou, os quais ali viveram e cultivaram o seu estro de beleza e harmonia.
Mas que, no decorrer do tempo, o poder da negligência nacional depressa enterrou no cemitério de seu desvairo político.
BSB, 14.01.14