ATENAS BRASILEIRA:
O MITO
DA CIDADE ERUDITA
Ao transpormos o limiar do terceiro
milênio, quando
já vivemos o clímax
da “Era da Incerteza”,
sob o jugo
da televisão e da desenfreada globalização, como
que observamos a cultura
em nosso
País perder terreno a olhos
vistos.
Apesar dos esforços e empenho
da chamada frente
intelectual e dos programas
criados e desenvolvidos,
na área pública
e privada, de incentivo
ao bem cultural, parece que
continuamos engatinhando em termos de um projeto intelectual
de grande porte.
O resultado aí
está: um País
com alto
índice de analfabetismo, que se ressente ainda
de uma política construtiva
de fomento à ciência,
onde a pesquisa
é empírica e a tecnologia
não consegue produzir
uma aplicação eficiente,
com resposta
rápida e adequada à geração
do progresso no País.
Fica a impressão
de que nossa
inteligência não
se acha ainda
à altura do progresso
merecido. Desafortunadamente, esperamos que a técnica nos caia do céu,
esquecidos de que ela,
também, a técnica,
na realidade, não
passa de um
“bem cultural”, disfarçado em
engenhosidade humana. Como tal, precisa de incentivo
e cuidadoso cultivo.
Com a supremacia hoje
da matéria sobre
o espírito, com
a supervalorização do econômico como sinal de riqueza e prosperidade da nação,
cada vez
mais suprime-se a cultura
do planejamento político
devido sua
notória inutilidade.
Um indescritível
contra-senso, como
se se pudesse progredir, sem
pensar. Agir sem primeiro saber
porque, nem
para que.
O assunto
vem-nos à baila, ao observarmos o
maltrato que sofre hoje
nossas grandes
metrópoles, cada
dia mais
inchadas de moradores migrantes, que para elas aportam, na
esperança de uma vida
melhor. E dizer
que no passado
uma dessas cidades ousou merecer
o epíteto de “ATENAS BRASILEIRA”.
No
Brasil, sua ATENAS poderia muito bem ter sido instalada na então capital federal, o Rio de Janeiro, onde
se encontrava o conciliábulo da inteligência imperial. Também
podia ficar no pioneiro
refúgio dos magnatas
portugueses, a Salvador do Boca
do Inferno e Castro Alves. Podia perfeitamente localizar-se no Nordeste,
incorporando a rebeldia pernambucana
nos canais
semi-venezianos de Recife. Ou nas areias
da Fortaleza alencarina.
Paradoxalmente, nenhuma delas
reivindicou para si
o famoso epíteto.
Coube à província do Maranhão fazê-lo. Por que o privilégio? Afinal
o que fez o Maranhão, ou melhor, a cidade de São
Luis, para tornar-se a capital
da inteligência nacional,
em lugar
de outras até mais
bem evoluídas?
Deveu-se o fato
unicamente ao inusitado brilho e fulgor
com que
a inteligência maranhense
cintilou em determinado
período da história
brasileira. Graças
unicamente ao fastígio a que chegou a cultura
maranhense nos
anais da cultura
nacional. Deveu-se sem
dúvida à culta
pena de João Francisco Lisboa, ao destemor de Sotero dos Reis,
à latinidade de Odorico Mendes ou à lírica erudita
de Gonçalves Dias. Mais
tarde, na preservação
do lume helênico,
nova plêiade
se agiganta com Coelho
Neto, Humberto de Campos,
Arthur Azevedo, Aluízio Azevedo, Adelino Fontoura, Trajano Galvão, Antônio Lobo, Nina Rodrigues, Fran Pacheco, Souzândrade,
Maranhão Sobrinho e tantos
outros mais.
Mas, será mesmo que o
Maranhão, outrora berço
de cultura e espantoso
progresso, como
se depreende de sua história,
soube preservar tal
fastígio de glória?
Oxalá pudéssemos dizer
que sim.
Como tudo
o que ocorre neste país.
Oxalá pudéssemos constatar, também
nas plagas maranhenses,
a prevalência da cultura,
a supremacia da inteligência
sobre a mediocridade. Só assim
conseguiríamos superar o cáustico,
mas verídico
prognóstico de Rui Barbosa... “de tanto
ver triunfar as nulidades...”
É evidente
que a cultura
maranhense não
morreu, como ainda
não feneceu a inteligência
pátria. A cultura
de um povo
jamais se há de apagar.
Há de sempre surgir
abnegados. Pessoas que
acreditam que nem
só de pão
vive o ser humano,
que é preciso
sonhar mais alto, alçar vôo acima dos plátanos e não somente rastejar, à busca do “de comer” cotidiano.
É neste ponto que relembramos a década
de 50 como uma espécie
de repositório, ou
depositário de um
resíduo cultural que
paradoxalmente teima
em resistir,
em meio
à borrasca do marasmo
intelectual, ao sabor
da apatia reflexiva
que reina
nos dias
que correm.
Esse o fiapo de memória
que procuramos vivenciar
dentro do contexto
da cidade de São
Luis dos anos 50. A cidade
gonçalvina que elegemos para
encarnar o Mito da Cidade Erudita.
Nessa época,
havia um clima
de estudo e erudição,
até hoje
insuperável. Podia-se sentir
que o maranhense
respirava o saber. Era
nas salas de aulas,
nas bibliotecas (só
havia mesmo uma, a Pública,
denominada o “Bolo de Noiva”,
devido sua
arquitetura estilo
“nouveau”). Foi nesse ambiente que se
influenciou toda uma geração. Dava gosto
ouvir-se fora do Maranhão o dizer-se: “É onde
se fala melhor
o Português.”
O maranhense
ganhou fama nos
concursos, nos
quais via de regra obtinha sempre
altos graus,
notadamente os do Banco do Brasil. Era a geração que procurava seguir os padrões da ATENAS BRASILEIRA.
Não terá sido uma espécie de último esgar literário
de uma geração em
compasso de agonia?
Não será que
o País viveu nos
anos 50 essa espécie
de estertor cultural, que se refletia também
na cidade que
reivindicara para si
no passado o título
de ATENAS BRASILEIRA?
Sim, porque o Mito
da Cida Erudita — de que a pequena São Luis se investiu naquele tempo
— parece ter sido tão
fugaz como o
de todas as outras cidades que também
abrigaram, em suas
ruas, seus
colégios, suas
academias, seus
jornais, suas
famílias, poetas,
escritores, professores
cientistas, pesquisadores,
médicos abnegados, advogados
competentes, filósofos, pessoas de notório
saber.
Sem esses abnegados, desprezando-se a cultura,
o saber como
se vem fazendo, destruindo-se o amor às
nossas coisas pelo
culto ao irracionalismo da prosperidade vazia, fica muito
difícil construirmos uma nação que tenha
por ideal
a sabedoria de ATENAS.
Quando muito não
passaremos de uma medíocre APENAS o país onde, por ironia do destino ou mera casualidade, uma de suas
cidades ousou, em
determinado tempo
histórico, cognominar-se a ATENAS BRASILEIRA, devido
ao desassombrado grupo de intelectuais que
em seu
berço prosperou, os quais
ali viveram e cultivaram o seu estro de beleza e harmonia.
Mas que, no decorrer do tempo, o poder da negligência nacional
depressa enterrou no cemitério
de seu desvairo
político.
BSB, 14.01.14