quarta-feira, 5 de março de 2014

Longe demais para desistir de quem somos


Longe demais para desistir de quem somos

Um visão poética e simbólica da música
Get Lucky, do grupo de rock Daft Punk.


Imagine a origem de cada ciclo de conquistas que o homem alcançou, de como a  inventividade, a criatividade e a tenacidade de homens e mulheres de todos os tempos foram capazes de erguer línguas, culturas, monumentos – dos belos obeliscos às catedrais, expressões literárias e simbólicas magníficas, tudo ao seu tempo. São  grandiosas obras e legados transmitidos ardorosamente para os ciclos seguintes até chegarem aos nossos dias.

Imaginemos ainda que cada um desses ciclos de certa forma cumpre um grandioso ciclo orquestrado desde as raízes do Universo e do Planeta, para toda a Humanidade, a partir de sua raiz mais primitiva,

Like the legend of the Phoenix.

Desde então nosso adorável planeta, tão carinhosa e meticulosamente engendrado para a vida em abundância – das distâncias milimetricamente satisfatórias às frequências precisas do espectro magnético entre a Terra e o Sol, pelo Deus criador; continua girando sob o fluxo da energia do astro rei, que todo dia nos faz lembrar

The force of beginning
What keeps the planet spinning

Então constatamos que chegamos muito longe. Tão longe. Longe demais,

To give up who we are.

Seria possível desistir (give up) de nossa caminhada depois de tanto? Ou será, na verdade, questão de voltarmos a descobrir quem realmente somos, a busca do nosso quid est, o que é das coisas, do clássico discurso filosófico?

Com essas três singelas evocações o grupo francês Daft Punk concebeu uma das musicas mais badaladas dos últimos tempos. O ritmo frenético esconde um pouco o seu tom poético, mas não é difícil de ser percebido, mesmo para os eternos estudantes intermediários de inglês como eu mesmo. Muito mais que entes vagantes, nós somos, carregamos a imagem daquele que é, porque Ele é aquele que é, desde sempre. A poesia embutida numa balada de rock, querendo ou não, lança a questão do ser no tempo, e repete, à exaustão, sem cansar, a mensagem de nossa sorte extraordinária:

I'm up all night to get lucky

Pensando bem é verdade. Se os dias que Deus nos dá são belos, ainda que com todos os ardis e lutas, ao chegar à noite, temos tudo para dar as graças a esse demiurgo da águia criadora, fonte das fontes incansáveis a renascer das cinzas, do barro ou do sêmen original. 

Valido, sobretudo, pela gratuidade e liberalidade do intelecto rei que governa nossas ações e vontades.

I'm up all night to get lucky

Somos o que somos. E podemos ainda ser muito mais do que temos sido, ou reconhecido em nossos antepassados. Desde um pai Abraão até um Padre Pietralcina, um Chesterton ou um Mário Ferreira dos Santos.

Celebremos sim nossa sorte.

Amém.


Murilo Carlos Veras

Brasilia, 04 de março de 2014.

terça-feira, 4 de março de 2014


OSCAR 2014 :  UMA  AVALIAÇÃO

OU APURAÇÃO DE RESULTADOS?

 
                                               Murilo Moreira Veras

 

Esse evento cinematográfico considerado o  mais glamoroso do planeta – a entrega do Oscar – cada ano parece mais descaracterizar-se como uma celebração do cinema-arte. Não foi diferente a festa deste ano, quando da premiação dos filmes de 2013.

Sempre nos indagamos qual a razão de um evento destinado a premiar os melhores filmes do ano tem necessariamente de ser um engodo de celebridades, transmitindo glamour, fazendo charme, atrizes fazendo fricotes e agora essa nova novidade, fingindo queda no tal tapete vermelho. Aliás, por que tapete vermelho e não azul ou amarelo?

Que valor tem para o público cinéfilo e mesmo o comum frequentador de cinema que uma atriz toda esplendorosa feito uma gata no cio caia no tapete vermelho ou finja cair?

Isto do ponto de vista do espetáculo em si, do showbusiness, como soe convir a todo evento que se quer celebratório. Mas por que o exagero, a proliferação do estapafúrdio, dessa quantidade de jornalistas e comentaristas, o mais das vezes expelindo tolices, falando sobre futilidades? Parecem mais uma trupe de gralhas falantes, trocando loas uma às outras?

Querem ver alguns fatos curiosos e sacadas absurdas que ocorreram neste Oscar 2014?

(a) A apresentadora oficial – Ellen DeGeneris – aparece de terninho masculino o andar de homem e conta piadas agressivas que mais constrange do que diverte o público. Aliás, diga-se de passagem, a plateia parece constituída de pessoas de miolo mole, aplaudem por qualquer coisa, uma bestiologia qualquer, como acontecia, anos atrás, com as piadas infames de Bob Hope.

 

(b) A certa altura ela faz trocadilho com o filme Hunger Games, enquanto avisa que os convidados estão morrendo de fome e logo aparecem garçons oferendo pizzas, que – pasmem – são devoradas ali mesmo, um dos distribuidores o celebrado Brad Pitt que, pouca gente sabe, começou a vida entregando pizza nas residências.

 

(c)  Certa comentarista refere-se a uma atriz que “está de gravidez discreta”, como se houvesse gravidez indiscreta.

 

(d) Outra insinua maldosamente que o vestido de outra atriz está aparecendo o sovaco.

 

(e) Uma dessas gralhas, brasileiras, por sinal, comenta, dizendo-se fã inconteste do cômico Jimmy Carrey e sai com esta: “...o que aquela boca não deve fazer.”

 

(f)  Outra jornalista, com venenosa insinuação, indaga da Ellen, que todo mundo sabe vive com uma companheira: “O que vocês vão fazer depois do Oscar? Resposta da Ellen: “Vou pegar umas festas por ai...” E depois das festas?  Insiste a outra: E Ellen sempre com aquele seu jeito de metrasexual: “...Vamos para a cama, pois tenho de fazer um programa bem cedo.”

 

Não há negar: a festa do Oscar está cada vez mais desinteressante, mais para portal de propaganda comercial e exibição de alta moda do que uma celebração do cinema como arte e diversão. Ademais, para que realmente se constitua tal teria que ser totalmente reformulada. O cinéfilo, os frequentadores assíduos da sétima arte, a rigor não se interessa por vestido de atriz, penteado de cabelo, smoking desse ou daquela feitio, fricotes de mulheres com egos inflados, grávida discretas ou indiscretas. Nós que amamos e cultuamos a arte cinematográfica como gênero de cultura, arte e lazer, tal como o são a literatura e o teatro, na verdade  queríamos ver no Oscar era mais informação sobre essa arte, encontros, debates, uma assembleia de alto nível, tendo o cinema como tema recorrente. Como não bastasse, os filmes do ano deveriam ser eleitos pelos cinéfilos e não por uma comissão secreta de nefelibatas milionários, magnatas donos dos grandes estúdios e distribuidoras, em escolha secreta, às vezes totalmente descabidas.

Por que, por exemplo, um filme magnífico como Gravidade com sete prêmios técnicos não foi considerado o melhor filme, perdendo para 12 Anos de Escravidão, óbvio demais, espécie de carta marcada? E mais: o O Grande Gatsby ganhou duas estatuetas – melhor figurino & direção de arte – enquanto O Lobo de Wall Street e Philomena não levaram nenhuma?

É por essas e outras que o Oscar resvala para a mediocridade e perde, assim, em conteúdo e qualidade.
Bsb, 4.03.14