Camões
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etério, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;
Roga a Deus que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
O reencontro de almas gentis no assento etéreo.
Em
Bocage nosso ser, apesar de essencial, se evapora numa vida insana, e momentos
curtos de sabedoria valem mais que muitos anos da lide existencial.
Em Camões a memória dessa existência
se conserva peremptoriamente na lida cotidiana, seja do triste ou do mais ardente.
Assim, não é possível remediar a mágoa de ver a vida de uma alma gentil partir
abruptamente nem esquecer as dores da ausência de um ente querido com as perdas
dai decorrentes.
Mas, se uma vida encurtada provoca
perdas aqui na terra, os ganhos de eternidade desde sempre superam essa vida
relativa - e mormente efêmera e descontente, entremeada por lembranças
majestosas e efervescentes; e, em Deus, toda a perda se converte em ganhos no
assento etéreo.
Nesse ambiente, o reencontro de almas
gentis é o renascer para o repouso na eternidade do Céu. Então, como no Bocage
tardio, mais vale a espera salutar de um momento de glória que o consumir de
anos em remediações vãs em nosso pequeno barco a verter os mares do mundo
insano. Enquanto este dia não chega, se alguma dor ou lágrima se aproveita,
resta esperar.
Não a espera morosa, ociosa e ufana, um
mal que desde a origem sucumbente à natureza escrava, e sim o esmero para o Encontro
em el día del último viaje. O cuidar
de tudo que é essencial, realística e habilmente, do ser tal e qual somos, ora
abismados, ora quase imortais, dentro de nossas possibilidades, vale
dizer, casi desnudo, como disse e fez Antônio Machado....
"a bordo de la nave, ligero
de equipaje como los filhos de la mar".
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