quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A vindima de Augusto Mayer (sonetos)




A vindima de Augusto Mayer (sonetos)


Gota a gota a luz da vida alimenta minha alma, desde os dias de dormência, aridez e monotonia do mês de Agosto. Pouco a pouco, mês a mês, ano após ano, o sol de Deus, do mundo e da vida, com suas alegrias e tristezas, vão me nutrindo e podando conforme os ciclos do viver e saber, em ritual de amadurecimento para os novos tempos que se anunciam.

Nessa caminhada, quebrada a dormência do outono, entre picos e vales, entre sombras e clareiras, minha alma saboreará gostos e beijos, ora doces, ora amargos, anunciados pela aurora e o anoitecer de um novo tempo: seja na mansidão de mais um dia de vã labuta, no rubor de um breve período de clamor ou num longo ano de espera e dedicação, até o momento da vindima. Momento de saborear a cor e o gosto maduro da uva in natura (bem como aspirar o aroma penetrante de bagas esmagadas). Desenlace de uma rotina de horas de sono (e despertar) que parecia não ter fim, pois são,

Horas que se esquecem das horas...Até o dia da vindima.

A quem provou o seu dia de vindima, grato nos é cada dia de sonho e frustrações, lembranças e esquecimento. A cada momento de uma abertura porosa da alma, receptiva e amorosa aos ventos e rubores do alvorecer de um além que se aproxima, o fermento e o tempero concrecionado pelos ingredientes de prazer e dor no momento seguinte, em novos ciclos de riscos e oportunidades, temores e deslumbramentos. No limiar, nova sombra que nos conforta (ou apavora), anuncia (ou encobre), ainda do alto, novas moradas que se aproximam a desanuviar as arestas e fendas de minha sina; depois, seguindo mais abaixo, fiel até o fim da estrada tomada - ou aberto àquela outra ali do lado; são densas vivências humanas a seguir.

Doces lembranças fixadas, tristezas inconsoladas esquecidas?

Não importa. Saudades assim não se chora mais. Ao contrário, seguirei sereno, nem bom nem triste, até mesmo cantando o mal vivido. Que tudo se repita e se reconfigure. E então,

Após a vindima.... que as horas voltem sempre as mesmas horas.



BSB, 30 de agosto de 2014.

MCMV

Nenhum comentário: