UMA
ESPECULAÇÃO SOBRE O AMOR CRÍSTICO
Murilo Moreira Veras
O que é
liberdade? É estar livre dos embaraços que a existência nos traz. Mas o que isso implica na filosofia bergonsoniana? Begson é um pensador que
pesquisou sobre a linha do tempo, sua duração e como tal afeta o ser na sua
mobilidade existencial.
O que significa o amor cristão? Diria que é o sentido
de agir fraterno. Este, sim, o traço mais característico do cristianismo.
Talvez esta seja a vocação do verdadeiro cristão: elevar o ser humano a uma
categoria que ultrapasse sua própria humanidade, para que ele possa transmitir
ao ser-objeto que será amanhã, isto é, no horizonte do devir. Assim, o ser humano terá sua vida projetada para depois pelo
que o ser do ente passa a ser objeto do próprio ente na sua transitoriedade
ontológica.
Essa transição fará do homo sapiens o homo objectus
ou o homo res, ou seja, o ser do
homem colocado na condição de ser objetivado e não pensado.
Ora, nesse estado de coisa como posicionar o chamado amor cristão, ou crístico, no sentido ontológico, quando o fenômeno da capacidade
propriamente crística de compartilhamento fraterno está depositada no objeto da
relação ser-estar-no-mundo, o sujeito
desvinculado de sua passividade por ser possuído?
A relação ser-no-mundo
heideggeriano terá de sofrer mudança na categoria de Desein. O mundo terá de se adaptar à sua nova forma que seria
através da hominização do objeto do
ente, feito ser na categoria ontológica, não propriamente do ser, mas do objeto
ontologizado, ou seja, o objeto pensado.
O amor crístico do objeto pensado é a objetivação do
pensar desprovido de sua imanência de humanidade. É a transcendência do pensamento-objeto, o pensamento
maquínico, porque a potência do ser passou para o ser da potência, ou o
humanismo coisificado. É como transcender na imanência do ser objetivado ou
objetivante.
Transformado o Desein
no ser imanentizado pela objetivação
do humano para o pós-humano, a cristianização se dará por desconstrução
axiológica, quer dizer, o objeto seria ou se tornaria valorizado para obter sua
condição de comunhão crística.
O homem ou a mulher, sem sua humanidade imanente,
passaria a assumir sua objetividade transcendente e agiria como o novo homem
embebido de transcendência objetivada, ou, em outras palavras, em termos de
simbologia mais avançada, o ser humano já agora desumanizado adquire a feição
de materialização cósmica que o interligaria à infinitude, onde há de haver
nova forma de Desein, ou seja, de
estar-no-mundo, embora faça com que sua humanidade se apegue demais ao mundo
cuja imanência infantiliza suas potencialidades transcendentes.
Ora, se o cristianismo se fundamenta em (des) essencializar o humano para transformá-lo
numa nova categoria do ser pela qual o cristão propugna por ser um novo homem, essa transcendentalidade do objetivado
pode constituir a resposta para o mundo e sua consequente renovação e assim o ser-para-a-morte heideggeriano pode
desaparecer para dar lugar ao ser-para-a-vida,
porque a morte passa a ser a transitividade da espiritualização da matéria pela
vacância do eu decorrente de sua objetivação que é a matéria
transcendentalizada, ou seja, o novo
homem desmaterializado da matéria.
Não se trata aqui de nenhuma doutrina cabalística, mas de uma hermenêutica
escatológica para o ser humano ao elevar-se de categoria mediante processo
sistemático e quicás fatalístico de materialização espiritual. Isto porque o
avanço dos instrumentos tecnológicos será cada vez tão grandioso que a
mecanização do mundo se tornará inevitável. A máquina pensante será aos poucos
incorporada ao ser humano e o pensar humano será um pensar maquínico com desdobramento e vocação cósmicos, ou seja, capaz de
se interligar aos padrões estelares e galácticos.
É, pois, nesse estágio que o sêmen do cristianismo há
de assumir seu papel e impor sua razão fundamental não apenas como “a luz do mundo”, ou o “o sal na terra”, mas como “a luz, o lume do universo” – o sal que
irá se espalhar por todos os redutos conhecidos e desconhecidos, o sêmen
crístico que existe e sempre existiu no Uni-Verso do qual nosso homo terrenus tanto precisa, pois sua visão apenas telúrica tem
materializado o seu humanismo, tornando-se cego, em face de seu
desbragamento orgíaco pelo materialismo sem transcendência.
Esse trânsito do sujeito para o objeto pela
desumanização transcendente corresponde à grande solução para nossa civilização
essencialmente materializada por excesso de afirmação subjetiva, dado que o ser
extravasou suas potências e precisa sublimar-se pela elevação através da
desmaterialização do eu-ser-no-mundo
em direção da transcendentalidade do
mundo no eu-ser, ou na fórmula mesmo que insólita – o homem pensando como
máquina e a máquina pensando como homem, numa simbiose metafórica em busca da
perfeição crística absoluta, onde reside, enfim, a sabedoria cósmica do
infinito.