terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ATENAS BRASILEIRA: O MITO
    DA CIDADE  ERUDITA

                                                  

Ao transpormos o limiar do terceiro milênio, quando vivemos o clímax da “Era da Incerteza”, sob o jugo da televisão e da desenfreada globalização, como que observamos a cultura em nosso País perder terreno a olhos vistos.
Apesar dos esforços e empenho da chamada frente intelectual e dos programas criados e desenvolvidos, na área pública e privada, de incentivo ao bem cultural, parece que continuamos engatinhando em termos de um projeto intelectual de grande porte. O resultado está: um País com alto índice de analfabetismo, que se ressente ainda de uma política construtiva de fomento à ciência, onde a pesquisa é empírica e a tecnologia não consegue produzir uma aplicação eficiente, com resposta rápida e adequada à geração do progresso no País.
Fica a impressão de que nossa inteligência não se acha ainda à altura do progresso merecido. Desafortunadamente, esperamos que a técnica nos caia do céu, esquecidos de que ela, também, a técnica, na realidade, não passa de umbem cultural”, disfarçado em engenhosidade humana. Como tal, precisa de incentivo e cuidadoso cultivo.
Com a supremacia hoje da matéria sobre o espírito, com a supervalorização do econômico como sinal de riqueza e prosperidade da nação, cada vez mais suprime-se a cultura do planejamento político devido sua notória inutilidade. Um indescritível contra-senso, como se se pudesse progredir, sem pensar. Agir sem primeiro saber porque, nem para que.
O assunto vem-nos à baila, ao observarmos o maltrato que sofre hoje nossas grandes metrópoles, cada dia mais inchadas de moradores migrantes, que para elas aportam, na esperança de uma vida melhor. E dizer que no passado uma dessas cidades ousou merecer o epíteto de “ATENAS BRASILEIRA”.
No  Brasil, sua ATENAS poderia muito bem ter sido instalada na então capital federal, o Rio de Janeiro, onde se encontrava o conciliábulo da inteligência imperial. Também podia ficar no pioneiro refúgio dos magnatas portugueses, a Salvador do Boca do Inferno e Castro Alves. Podia perfeitamente localizar-se no Nordeste, incorporando a rebeldia pernambucana nos canais semi-venezianos de Recife. Ou nas areias da Fortaleza alencarina.
Paradoxalmente, nenhuma delas reivindicou para si o famoso epíteto. Coube à província do Maranhão fazê-lo. Por que o privilégio? Afinal o que fez o Maranhão, ou melhor, a cidade de São Luis, para tornar-se a capital da inteligência nacional, em lugar de outras até mais bem evoluídas?
Deveu-se o fato unicamente ao inusitado brilho e fulgor com que a inteligência maranhense cintilou em determinado período da história brasileira. Graças unicamente ao fastígio a que chegou a cultura maranhense nos anais da cultura nacional. Deveu-se sem dúvida à culta pena de João Francisco Lisboa, ao destemor de Sotero dos Reis, à latinidade de Odorico Mendes ou à lírica erudita de Gonçalves Dias. Mais tarde, na preservação do lume helênico, nova plêiade se agiganta com Coelho Neto, Humberto de Campos, Arthur Azevedo, Aluízio Azevedo, Adelino Fontoura, Trajano Galvão, Antônio Lobo, Nina Rodrigues, Fran Pacheco, Souzândrade, Maranhão Sobrinho e tantos outros mais.
Mas, será mesmo que o Maranhão, outrora berço de cultura e espantoso progresso, como se depreende de sua história, soube preservar tal fastígio de glória?
Oxalá pudéssemos dizer que sim. Como tudo o que ocorre neste país. Oxalá pudéssemos constatar, também nas plagas maranhenses, a prevalência da cultura, a supremacia da inteligência sobre a mediocridade. assim conseguiríamos superar o cáustico, mas verídico prognóstico de Rui Barbosa... “de tanto ver triunfar as nulidades...”
É evidente que a cultura maranhense não morreu, como ainda não feneceu a inteligência pátria. A cultura de um povo jamais se há de apagar. Há de sempre surgir abnegados. Pessoas que acreditam que nem de pão vive o ser humano, que é preciso sonhar mais alto, alçar vôo acima dos plátanos e não somente rastejar, à busca do “de comercotidiano.
É neste ponto que relembramos a década de 50 como uma espécie de repositório, ou depositário de um resíduo cultural que paradoxalmente teima em resistir, em meio à borrasca do marasmo intelectual, ao sabor da apatia reflexiva que reina nos dias que correm.
Esse o fiapo de memória que procuramos vivenciar dentro do contexto da cidade de São Luis dos anos 50. A cidade gonçalvina que elegemos para encarnar o Mito da Cidade Erudita.
Nessa época, havia um clima de estudo e erudição, até hoje insuperável. Podia-se sentir que o maranhense respirava o saber. Era nas salas de aulas, nas bibliotecas ( havia mesmo uma, a Pública, denominada o “Bolo de Noiva”, devido sua arquitetura estilonouveau”). Foi nesse ambiente que se influenciou toda uma geração. Dava gosto ouvir-se fora do Maranhão o dizer-se: “É onde se fala melhor o Português.”
O maranhense ganhou fama nos concursos, nos quais via de regra obtinha sempre altos graus, notadamente os do Banco do Brasil. Era a geração que procurava seguir os padrões da ATENAS BRASILEIRA.
Não terá sido uma espécie de último esgar literário de uma geração em compasso de agonia? Não será que o País viveu nos anos 50 essa espécie de estertor cultural, que se refletia também na cidade que reivindicara para si no passado o título de ATENAS BRASILEIRA?
Sim, porque o Mito da Cida Erudita — de que a pequena São Luis se investiu naquele tempo — parece ter sido tão fugaz como o de todas as outras cidades que também abrigaram, em suas ruas, seus colégios, suas academias, seus jornais, suas famílias, poetas, escritores, professores cientistas, pesquisadores, médicos abnegados, advogados competentes, filósofos, pessoas de notório saber.
Sem esses abnegados, desprezando-se a cultura, o saber como se vem fazendo, destruindo-se o amor às nossas coisas pelo culto ao irracionalismo da prosperidade vazia, fica muito difícil construirmos uma nação que tenha por ideal a sabedoria de ATENAS.
Quando muito não passaremos de uma medíocre APENAS  o país onde, por ironia do destino ou mera casualidade, uma de suas cidades ousou, em determinado tempo histórico, cognominar-se a ATENAS BRASILEIRA, devido ao desassombrado grupo de intelectuais que em seu berço prosperou, os quais ali viveram e cultivaram o seu estro de beleza e harmonia.
Mas que, no decorrer do tempo, o poder da negligência nacional depressa enterrou no cemitério de seu desvairo político.
BSB, 14.01.14