Nortrhop Frye
O Código dos Códigos
293 p.
(Indicado por Olavo de Carvalho)
O autor canadense discorre com grande desenvoltura temas difíceis referentes ao intenso e intricado inter-relacionamento entre história, cultura e religião, desde os tempos da literatura de Homero e Platão, perpassando grande elenco de autores que fizeram história (e cultura literária) como Ésquilo, Agostinho, Dante, Vico, Nietsche, Kierkergaard, TS Eliot, Eliard Miceia e até Mestre Eickart e Teilhard de Chardin.Mas o foco maior é a Bíblia, particularmente o livro de Gênesis (citado 50 vezes), as epístolas de São Paulo (34), os livros de Êxodo (32), Ezequiel (21) Daniel (11) e Josué (10). Percebe-se grande influência do poeta inglês Willian Blake, do século XVIII, objeto de sua tese de doutorado. Mas, ao contrário de um Otto Maria Carpeaux (História da Literatura Ocidental), o objetivo aqui não é discorrer uma série interminável de autores (sem querer desmerecer as possíveis linhas teoréticas deste grande escritor), nem desenvolver tratados teológicos.
O ilustre pensador e historiador faz uma leitura inusitada da concepções exegéticas dos tempos histórico sob um prisma universal que nos faz lembrar outro grande intérprete da História, e da filosofia política, Eric Voegelin, também ainda lamentavelmente pouquíssimo conhecido no Brasil do cantores "literatos" (Chico Buarque não ganhou prêmios nacionais...qual sua obra mesmo?). Também, bem ao contrário das tolices que se andam publicando sobre códigos subliminares e ocultos da Bíblia, Frye envereda em grande profundidade sobre a influência dos textos bíblicos e de seus oráculos nos destinos da humanidade, desde a condução dos israelitas rumo ao evento de Cristo até uma literatura que lhe é oposta, iluminista e positivista, contribuindo para a desconstrução da dignidade da pessoa humana.
O núcleo da obra parece girar em torno do uso da linguagem para comunicar uma realidade que transcende a pura e simples descrição de fenômenos, da linguagem como estrita correspondência entre o verdadeiro e o falso, ou certo e errado. Através de mitos, símbolos e metáforas a literatura bíblica deu o tom da orquestra literária de todos os tempos. Por traz da aparente caoticidade de textos e livros desconectos, Frye identifica magistralmente uma unidade em comum, um jeito mais universal de expressão que subjaz a realidade histórica de "fatos" sequenciais. Para melhor captar a incomensurável riqueza expressiva dessa e outras literaturas de origem oracular, o autor propõem a distinção fundamental entre o universo da formas e figuras imagináticas que se fecham centripetamente no interior do sujeito, daquelas que tentam abarcar, em movimento centrífugo, o movimento contínuo de parte da realidade como correspondência objetiva do real.
O autor discorre sobre os diferentes planos de expressividade dos textos, em tipologias do alcance visado para o Homem em sua caminhada, como Profeta e Sabedoria. A força simbólica dessa expressividade pode ser melhor visualizada ao se contemplar, por exemplo, as fases do discurso, "aquilo que evoca, ora a palavra evoca a coisa, ora a coisa a palavra", o que só pode ser feito mediante o uso da metáfora, desde as metáforas da força da natureza dos contos homéricos, até o uso descritivo das ciências. Navegando por entrecortes os mais surpreendentes da literatura universal, Frye desenvolve conexões com maestria, desde o interesse pela matemática em Platão em relação à numerologia da Torá, até o silogismo quase naturalista de Aristóteles com relação ao tratadismo de interpretes autorizados da escolástica.O tradutor muito acertadamente, creio eu, optou pela adaptação do título original, de Great Code, para Código dos Códigos. Diria até que, se por traz de códigos pode-se querer apropriar, sem conseguir, canones fixos, o máximo que se consegue é contemplar símbolos mais profundos pela força de uma linguagem ao mesmo tempo universal e concreta. Cada esforço de decodificação gera outro tanto de expressividade e significação ainda maior, conforme a dinâmica da vida ativa e passiva (sophrosine) do sujeito histórico e cultural em tempo dinâmico, ora caótico ora escatológico. É a sagrada escritura como metalinguagem rodando sobre a subsistência do ipsu esse subsistem: uma Linguagem das Linguagens, metalinguagm, rumo a mathesis de Mario Ferreira dos Santos.
