Homilia do
Padre Mário, de 6 de julho de 2014 (Mt 11,25-30)
adaptado por
Murilo Carlos Veras
tema
principal: história e a utopia dos poderosos
O jogo de futebol visa ao divertimento e
como jogo coletivo exige regras a serem seguidas. A truculência de um jogador
como o que lesou as vértebras de Neymar nesta Copa é demonstração do quanto o
poder da força bruta pode estragar tudo. Poder, por definição, é algo que
impõem uma força superior sobre outrem. As regras fazem parte da sociedade na
medida em que as pessoas não saibam
fazer uso de sua liberdade em uma coletividade. De certa forma a vida é um
jogo. Regras em nossa vivência diária são necessárias e devem ser seguidas nos
mais diversos campos, inclusive no âmbito religioso*. Mas uma coisa é regular a
vontade egoísta das pessoas na medida desse egoísmo, outra é imaginar sociedades
utópicas em que todos tenham que ser regulados pela medida do consenso de
um grupo, mesmo que seja de uma maioria. Na História, maiorias também erram na
apreciação dos valores em jogo pois o critério de avaliação
pode estar errado e hoje sabemos muito bem quantos erros monumentais têm sido
cometidos em nome da maioria. O critério somente pode ser a da Verdade, que
segue de acordo com a natureza das coisas, a começar pela natureza do homem, a
lei de sua natureza. É algo que se aprende desde pequeno.
Ocorre que hoje desde criança somos desvirtuados da verdade. A
manipulação das consciências começa pelo distanciamento dos fatos reais, intencionalmente
promovidos no jogo de poder dos meios de comunicação, mesmo que pela via do
entretenimento, por brincadeira. Em programas de auditórios, costuma-se usar
atores para, por exemplo, simular deficientes cadeirantes que irão surpreender
pessoas de boa vontade que doam esmolas na rua. Ora, uma vez desmascarada a
farsa, a tendência dessas pessoas é ficar descrente e acabar por deixar de doar
daí em diante. Passam
a enxergar, nas próximas ocorrências, possibilidades de má-fé maiores que as
reais, i.e., uma percepção de realidade aparente que, com o tempo, pode acabar
por se concretizar mesmo. Elas vão se fechando e se auto justificando para não
se passarem mais por “tolos”. Percepções distorcidas como essa já começam na
educação escolar quando não se dá o devido valor aos agentes da história como
os heróis de guerra [como a do Paraguai], de grandes empreendedores [como José
Bonifácio e Visconde de Mauá] e se superestima o poder dos poderosos
[imperialismo inglês, etc., etc.]. Assim, da educação escolar até a
politica hodierna, vão dando a sensação de “natureza desvirtuada” da maioria ou
das autoridades constituídas. Se o outro é apenas mais um desses, então o
negócio é mesmo cada um defender seus interesses no jogo de poder e compensação
financeira.
Essa situação se propaga em toda a sociedade. Colaboram muito os
intelectuais que enfocam aspectos negativos da natureza humana e justificam
ideologias corretivas concomitantes. À medida que vão se distanciando da
Verdade, passam a criar suas verdades maquiadas, formas de pensar a
história que não passam de virtualidades na mente de supostos sábios da
modernidade, coligadas com interesses de um grupo em detrimento de outro. Quem
mais perde são os pequenos, os que se mantêm fiéis à realidade percebida espontaneamente,
independente de maquinações, seja do relacionamento amoroso de uma mãe ou de um
sacerdote em missão evangélica. Aos poucos, quase sem perceber, o antinatural
se faz o “normal” e os pequenos ''fracos e ingênuos” vão se tornando
literalmente escravos dos mais “fortes e espertos”. Vemos um mundo de utopia
como a de George Orwel, em seu 1984, ou de Aldous Huxley, em seu Admirável Mundo
Novo, se tornar realidade, fazerem história!
A escravidão de nossos dias é sutil, quase não é percebida, mas está
aí. Os sábios e entendidos de hoje como de ontem sempre se arrogaram os experts
da sociedade, mentores de uma concepção de “normalidade” de um mundo mais
“realista” com a condição “maligna” do homem e seu “gene egoísta” para
justificar formas mais sofisticadas de poder e controle social, acabando por
inibir o autocontrole e a criatividade, somente possíveis pela espontaneidade.
Os pequenos de ontem como de hoje sabem conviver com as
adversidades e também as oportunidades e riquezas da vida, à medida que
desenvolvem capax Dei, não se apegam ao poder e vivem o exemplo do
Evangelho [desde uma mãe do lar, até intelectuais de alto gabarito como
um Chesterton**]. A espontaneidade surge naturalmente com os valores
cristãos de fé, esperança e caridade.
Essas coisas não servem para a maioria dos intelectuais e poderosos de
hoje. Constroem ideais utópicos impraticáveis e são como animais instintivos
disputando poder: um dia cairão em sua própria armadilha mundana. Porque os
verdadeiros valores não provêm do mundo e sim da transcendência.
Ao longo da história eles são propositadamente escondidos pelo Pai, que está
nos céus. Ao fim e ao cabo, os expertos [pobres ou ricos] carregam os
maiores fardos em sua escravidão [idolatria], ao passo que os mansos e os humildes
certamente terão o seu, leve e paulatinamente, mas conquistarão céus e terra.
Murilo Carlos Veras
(interpretação livre, sem consulta do autor da homilia)
* Segundo Mario Ferreira dos Santos, a essência da
autoridade está na busca do bem comum mas, conforme Tomas de Aquino, aspectos
acidentais inevitavelmente produzem as arbitrariedades dos poderosos em todos
os âmbitos da sociedade. A autoridade costuma ser contestada de forma leviana
até mesmo entre os fiéis católicos. Quem conhece as homilias do pde Mario sabem
da importância do respeito a autoridade e às regras da Igreja, que pode ser estendido
para as demais autoridades civis desde que os princípios essenciais não sejam
violados. Seja pobre ou rico, a história tem demonstrado que as melhores
conquistas da humanidade partiram da sabedoria e espontaneidade das relações
entre os homens.
** Chesterton foi um intelectual católico de grande
repercussão entre ateus e religiosos em geral e notabilizou-se pela
profundidade de sua filosofia em base sólida cristã e em exemplo de vida
humilde em autêntica sabedoria, dando exemplos de conduta a partir da percepção
do senso comum das pessoas.
Naquela ocasião, Jesus pronunciou estas palavras: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.