Ensaios




Após decêndios de hibernação cultural o Brasil é sacudido por protestos de rua. Mas cadê os sábios para instruir nossa juventude? (I)

É uma realidade desconcertante no Brasil democrático. Emergiram Chicos buarques, Cássias ellers, Renatos russos às pencas. Todos tem em comum o clamor libertário associado ao bem estar econômico e material do povo, o igualitarismo social e a liberdade de expressão subsidiados e assegurados pelo Estado e em defesa do espírito de ganância dos capitalistas. Em nome da cultura mais popular busca-se novas opções de vida, mormente como opções de ruptura com o status quo anterior, seja de uma suposta cultura reacionária pró americana ou a esquizofrenia do  colaboracionismo da tradição católica conservadora ...  Mas então, me digam, o que sobrou da (alta) cultura brasileira? Até a década de 60 ainda podia-se citar um Carlos Drumond ou o filósofo Mario Ferreira dos Santos. Este sob o peso de seus quase 100 livros publicados e ainda por publicar, ou da venda de quase 1.000.000 de exemplares de conteúdo do mais alto nível cultural, filosófico e até econômico, um marco inédito na literatura latino-americana. Hoje o grande filósofo, após desafeto com o então queridinho da esquerda brasileira, Caio Prado Jr., seguido do inaceitável ocaso desta elite intelectual superficial, o filósofo-escritor tornou-se um ilustre desconhecido. Mesmo na esquerda tinha-se o peso de um Otto Maria Carpeaux, também quase desconhecido e já não mais lido. Recentemente buscou-se um nome para premio Jabuti de literatura. Não acharam, e na falta de um candidato sério, alguém propôs Chico Buarque. Não é que este sujeito levou? Levou a de ficção em 2010, sob protestos... Até a editora promotora da premiação protestou, ameaçou largar o patrocínio. 

Diante desse quadro, o que os jovens andam lendo, além das mídias sociais? Basta ver o mercado editorial para ver que não tem coisa que preste: desde as fantasia vampirescas para idiota ler até o cientificismo exdrúxulo de Richard Dawkins, vejam por exemplo artigo sobre a tese dos memes neste site...

Que dizer das universidades brasileiras? Quando enveredei na filosofia há cerca de cinco anos, busquei o ensino formal, comecei pela Universidade Católica de Brasília, encontrei uma coordenadora, e professora de duas das matérias, uma jovem recém egressa de um doutorado em Espinoza e mestrado também em Espinoza, que minimizava a filosofia cristã em detrimento de árabes e gnósticos (em aula de filosofia medieval dizia que Etiene Gilson era uma autor suspeito por ser “católico”), relativizava princípios elementares como o da não contradição e enaltecia fenomenologia de Hiddegger e Sartre sem qualquer contraposição séria e à altura que seria a de seu ilustre criador, o Sr. Edmundo Husserl. Muito menos de sua autorizada seguidora e oponente, a santa (!) Edith Stein, padroeira da Europa, sequer citada. Vez ou outra sugeria sites de Marx, Lenin, Marcuse, etc. Larguei o curso pela metade.

Um parênteses, posteriormente descobri artigo seu que naturalmente se imbuia da “lógica” espinoziana, venerava Espinoza - um idealista de peso, mas que em sua vivência histórica revelou-se de uma mentalidade esotérica radical impossível de ser assimilada por qualquer religião e acabou sendo  expulso da comunidade judaica a que pertencia. Comungando com a Sra. Marilene Chauí, aquela que defende Lula até a medula do c_ , enaltece a vida contestadora de um Spinoza coitadinho (um preludio de Nietzsche?) em contraposição às supostas benesses palacianas de seu conterrâneo, Leibintz, esquecendo que este, ao contrário do espirito irresoluto e desagregador daquele, lutou bravamente pela reintegração e conciliação das religiões cristãs de uma ponta a outra da Europa. Entretanto criticava Spinoza não por sua postura de vida real, mas por excessiva condescendência com os exploradores do ambiente natural uma vez que todo o filósofo deve ter profundo e sacratíssimo respeito pela mãe natureza, mantendo a mãe-terra intocável. Ponto para os radicais ecoxiitas com voz ativa na grande mídia e governos mundiais, perigo extra para os capitalistas produtores de alimentos fartos, anônimos, e aos pobres consumidores assalariados...

Entrei na UnB, curso de especialização, de elevado nível, muitos Ph.D.s de Oxford, Cambridge e Heidelberg. Ainda recomendo a jovens de consciência mais robusta. Mas eis o pacote adotado, que deve ser muito semelhante ao dos esquerdistas uspianos: muita filosofia politica de Harendt, nada de Voegelin, dedicação extra a Micea Eliade na filosofia da religião e migalhas de Tomas de Aquino. Nada de Etienne Gilson, Cardeal Newman, Scheunon ou Rene Guenon. Na lógica uma didática admirável, desde os silogismos de primeira ordem até a teoria da incompletudade de Goedel. Apesar deste grande matemático ter concluído pela inevitável existência da metafisica e da intuição, nosso ilustre professor, talvez para não contrariar o consenso da comunidade dos lógicos americanos e portugueses a que pertence (é co-autor de dicionário de termos lógicos junto com autores seguidores contritos da filosofia analítica anglo-saxônica – vejam site www.criticanarede.org), prefere manter-se fiel a teorias psico-sociais comportamentalistas e continuar acreditando que o homem é produto da linguagem, e como tal, incapaz de desenvolver uma autoconsciência autônoma e transcendental. Não percebe que a mentalidade logicista associada a uma psicologia sem o eu transcendental abre espaço para indignidade da pessoa humana e a instrumentalização e controles sociais de terceiros.

Na filosofia da ciência encontramos excelentes esquemas elucidativos de Descartes, Francis Bacon, Kant e do malfadado clube de Viena, mas uma tímida e temerária referência a Popper, típica de um professor que acumula o ensino de ciências da natureza e jamais ousaria contrariar outro consenso atual da comunidade cientifica brasileira: tudo que não seja plenamente explicado no plano psicofísico seria como que “fábulas” ou resíduo da metafisica (no mau sentido). Apesar dos limites claros da dicotomia sujeito/objeto demonstrada pela ciência quântica (em que o sujeito interfere à distância no resultado das medições sobre o mensurando ou objeto), além da inviabilidade de explicação do real nas  construções logico-matemáticas, do supracitado Goedel, persistiu em uma subjugação inaceitável da filosofia à ciência e preferiu acreditar na viabilidade de construção de modelos meta-matemáticos paralelos entre ciência objetiva e o mundo real objetivo. Por fim ridicularizou a hipótese dos mundos 1 (físico), 2 (psico-fisico) e 3 (cultura) do renomado pensador das ciências. Isso é que é ter na ciência! É mais ou menos como supor que o mundo das criações humanas devesse permanecer em nossas caixas cranianas, restrito a suas sinapses eletromagnéticas, separadas da realidade “objetiva”, esquecendo que a própria ciência é uma criação humana e nem por isso um mero abstracionismo subjetivo...Bom talvez queira demais, imagine um professor brasileiro aceitar realidade objetiva ontológica, de existência independente dos modelos newtonianos e darwinianos e que não esteja topologicamente centrada em algum ponto fora do próprio homem. Imagine contrariar as “revoluções” copernicana ou galileia tendo que engolir de novo... Aristóteles!

A essa altura o aprendiz de filósofo universitário, em vez de amante da sabedoria, já não passa de uma abelha perdida no meio da selva mecanicista e do abstracionismo linguístico.

Mas é justamente de um filósofo brasileiro, já não residente nessa selva, o Olavo de Carvalho, que poderíamos tirar o melhor conceito de filosofia: unidade do conhecimento com a consciência. Agora tudo muda, de uma mere meme a mais no mundo-relógio, o sujeito, o indivíduo enfim o ser filósofo torna-se sim agente consciente e presente na realidade, ainda que não possa mudá-la e sabe o porquê de certo dever de contentamento para que sua ânsia de mudança não torne o mundo ainda pior.

Então, nessas horas cruciais, cadê os sábios brasileiros?



Um comentário:

Vivianne disse...

realmente o estudo universitário,e consequentemente a pesquisa científica fica atralada aos modelos mentais dos professores. Cito o exemplo de minha filha que terminou o mestrado ( biologia), mas cujo resultado de sua dissertação foi abaixo do esperado por ela, devido à intransigência de seu orientador. Os novos ingressantes no mundo acadêmicos precisam reagir, tal qual a população que protesta nas ruas e ultrapassar esse paradigma esquerdista em vigor.