ATENAS BRASILEIRA :
O MITO
DA CIDADE ERUDITA
Ao transpormos o limiar do terceiro
milênio , quando
já vivemos o clímax
da “Era da Incerteza ”,
sob o jugo
da televisão e da desenfreada globalização , como
que observamos a cultura
em nosso
País perder terreno a olhos
vistos .
Fica a impressão
de que nossa
inteligência não
se acha ainda
à altura do progresso
merecido. Desafortunadamente , esperamos que a técnica nos caia do céu ,
esquecidos de que ela ,
também , a técnica ,
na realidade , não
passa de um
“bem cultural”, disfarçado em
engenhosidade humana . Como tal , precisa de incentivo
e cuidadoso cultivo .
O assunto
vem-nos à baila , ao observarmos o
maltrato que sofre hoje
nossa s grandes
metrópoles , cada
dia mais
inchadas de moradores migrantes, que para elas aportam, na
esperança de uma vida
melhor . E dizer
que no passado
uma dessas cidades ousou merecer
o epíteto de “ATENAS BRASILEIRA ”.
No
Brasil, sua ATENAS poderia muito bem ter sido instalada na então capital federal , o Rio de Janeiro , onde
se encontrava o conciliábulo da inteligência imperial. Também
podia ficar no pioneiro
refúgio dos magnatas
portugueses, a Salvador do Boca
do Inferno e Castro Alves. Podia perfeitamente localizar-se no Nordeste ,
incorporando a rebeldia pernambucana
nos canais
semi-venezianos de Recife . Ou nas areias
da Fortaleza alencarina.
Deveu-se o fato
unicamente ao inusitado brilho e fulgor
com que
a inteligência maranhense
cintilou em determinado
período da história
brasileira . Graças
unicamente ao fastígio a que chegou a cultura
maranhense nos
anais da cultura
nacional . Deveu-se sem
dúvida à culta
pena de João Francisco Lisboa, ao destemor de Sotero dos Reis ,
à latinidade de Odorico Mendes ou à lírica erudita
de Gonçalves Dias . Mais
tarde , na preservação
do lume helênico ,
nova plêiade
se agiganta com Coelho
Neto , Humberto de Campos ,
Arthur Azevedo, Aluízio Azevedo, Adelino Fontoura, Trajano Galvão, Antônio Lobo , Nina Rodrigues, Fran Pacheco, Souzândrade,
Maranhão Sobrinho e tantos
outros mais .
Oxalá pudéssemos dizer
que sim .
Como tudo
o que ocorre neste país .
Oxalá pudéssemos constatar , também
nas plagas maranhenses ,
a prevalência da cultura ,
a supremacia da inteligência
sobre a mediocridade. Só assim
conseguiríamos superar o cáustico ,
mas verídico
prognóstico de Rui Barbosa... “de tanto
ver triunfar as nulidades...”
É evidente
que a cultura
maranhense não
morreu, como ainda
não feneceu a inteligência
pátria . A cultura
de um povo
jamais se há de apagar .
Há de sempre surgir
abnegados. Pessoas que
acreditam que nem
só de pão
vive o ser humano ,
que é preciso
sonhar mais alto , alçar vôo acima dos plátanos e não somente rastejar , à busca do “de comer ” cotidiano .
É neste ponto que relembramos a década
de 50 como uma espécie
de repositório , ou
depositário de um
resíduo cultural que
paradoxalmente teima
em resistir ,
em meio
à borrasca do marasmo
intelectual , ao sabor
da apatia reflexiva
que reina
nos dias
que correm.
Nessa época ,
havia um clima
de estudo e erudição ,
até hoje
insuperável . Podia-se sentir
que o maranhense
respirava o saber . Era
nas salas de aulas ,
nas bibliotecas (só
havia mesmo uma, a Pública ,
denominada o “Bolo de Noiva ”,
devido sua
arquitetura estilo
“nouveau”). Foi nesse ambiente que se
influenciou toda uma geração . Dava gosto
ouvir-se fora do Maranhão o dizer-se: “É onde
se fala melhor
o Português .”
O maranhense
ganhou fama nos
concursos , nos
quais via de regra obtinha sempre
altos graus ,
notadamente os do Banco do Brasil. Era a geração que procurava seguir os padrões da ATENAS BRASILEIRA .
BSB, 14.01.14
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