Uma observação sobre a Lei dos Rendimentos Decrescentes e o uso de indicadores de valor de ativos para o agronegócio brasileiro
Por Murilo Carlos Muniz Veras *
"Uma doença comum que aflige a administração pública em todo o mundo é a impressão de que os nossos problemas são diferentes. Com certeza são diferentes, mas os princípios que ajudarão a melhorar a qualidade do produto e dos serviços são, por natureza, universais".
Edwards Deming (estatístico, pai dos Sistemas da Qualidade)
Abstract
A percepção de valor na economia é um dos temas mais instigantes dessa disciplina, suscitando a interface com outras disciplinas ou ontologias regionais para o entendimento dos empreendimentos do homem como agente de transformação e superação de suas insatisfações e busca de um mundo melhor. No agronegócio a origem desta busca remonta ao entendimento das leis cósmicas por padrões de transformação dos elementos da natureza que pudessem ser traduzidas em leis universais de resposta em curvas de produção conforme a clássica Lei dos Rendimentos Decrescentes. Uma vez estabelecidos os principais elementos limitantes, seria possível maximizar a utilidade de recursos finitos por funções e metafunções matemáticas que expressem o potencial máximo de uso dos ativos econômicos, desde a terra até os artefatos eletromecânicos. Apesar da excessiva simplicidade desses modelos, no período de alta resposta ao uso de tecnologias da chamada revolução verde e de incremento de demanda de alimentos, a visão "produtivista" da pesquisa associada à "tecnicista" de assistência técnica e extensão rural atenderam bem aos anseios e ao estamento epocal da sociedade. Entretanto, para a escola austríaca de economia a valoração de bens na dinâmica real da economia perpassa por uma infinidade de fatores e circunstâncias que inviabilizam o uso de constantes universais e modelos pré-formatados de resposta às ações humanas. Neste cenário, de larga escala e incerteza, ativos-chaves devem ser avaliados menos por seu valor atual, e mais por potencial futuro em circunstâncias predisponentes e emergentes as mais diversas. Nessa perspectiva o empreendedor agroindustrial deverá calcar suas decisões em circunstância valorativas as mais distintas, do local e regional, a princípio mais estáveis e certas, aos valores globais, mais incertos e variáveis. Filosoficamente falando são potenciais estimativos, indicativos, de valor de uso e valor de troca, que se intercambiam positiva e dialeticamente. Na moderna gestão contábil são rubricados dinamicamente como superveniência e insubsistência de ativos. Na gestão organizacional, a competência na ordenação de metas e estratégias conforme visões de mundo (Weltanschauung). Agronomicamente pode ser a medida da resposta de mecânica linear de produtividade, mais sujeita a valores de troca, e a busca escalar de autossuficiência de produção holística, mais dependente de valores de uso. No ambiente de 2
competividade e diversidade de valoração de bens é preciso alavancar o vetor preponderante de "transformação" entre polos antagônicos da realidade. Na agricultura brasileira, considerando o fator "fertilizante" em dois cenários distintos, podemos identificar duas tipologias antitéticas em dois de seus mais importantes agropolos: a agricultura de precisão de commodities anuais, representada pelo milho e soja no MT; e a fruticultura orgânica perene, representada pela uva e manga no polo de Petrolina-PE. Da avaliação desses dois macro indicadores, seria possível detectar diferenças decisivas na rentabilidade entre os dois sistemas, resultantes do trade-off entre a elasticidade renda do consumidor (ex.: brasileiro e europeu) e a elasticidade de custo de um insumo (nacional e importado) em metacurvas virtuais de resposta. Daí se poderia elencar as oportunidades e riscos da atividade em cenários de curto e longo prazos e ter um diagnóstico preliminar de avaliação baseada em cenários físicos, institucionais e até culturais. Intuitivamente o produtor-empreendedor procura equacionar a melhor combinação de ativos desde a escolha do local de plantio até o criterioso planejamento dos fatores estocásticos e integrativos de produção. Apesar dos limites da quantificação de respostas, é possível influir favoravelmente no deslocamento de uma metacurva de produção em direção a parâmetros de efetiva criação de valor, testados pelo mercado, como as do capital natural biológico na soja, ou consensuados via marcos legais, como os do Sistema de Produção Integrada na fruticultura de exportação.
________________________________
* Eng. Arg., MSc. Filosofia (esp.), fiscal federal agropecuário da Coordenação de Laboratórios do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento
Revolução verde e o paradigma produtivista
Mais do que modelos matemáticos e estatísticos para explicar recortes específicos de um fenômeno natural qualquer, o tipo de informação que o produtor-empreendedor necessita num mercado competitivo é aquele que possa melhor agregar valor ao produto que o consumidor exige. Ao contrário do setor estritamente industrial, que permite melhor controle das variáveis ambientais, na agropecuária as informações devem ainda canalizar os recursos pelo uso de ativos mecanizados e naturais em um ambiente volúvel e até hostil ao sistema produtivo.
No modelo clássico no paradigma produtivista os ativos são vistos como meros suportes ao processo de entrada e saída de bens. O modelo pressupõe identificar e medir um ponto ótimo de resposta a uma função de produção entre fatores de produção (insumos) e a produção final (óleos, frutos, rendimento de carcaça).
Apesar das dificuldades inerentes a essa atividade, o paradigma clássico produtivista de pesquisa e extensão adotado pelos norte-americanos no pós guerra teve seu momento de glória, funcionou e muito bem na chamada revolução verde. Até os anos 1970 o mundo vivenciava o boom de crescimento, o impulso do parque industrial emergente pós-guerra e as surpreendentes respostas do melhoramento genético à aplicação de fertilizantes e à mecanização.
A pesquisa e a assistência técnica, aliadas ao modelo convencional de administração e contabilidade dos recursos produtivos em uma típica propriedade rural, no Brasil, seguiram fielmente a tradição "produtivista" do Programa americano de assistência técnica e extensão rural (sistema Abicar/Ater) e encontraram enorme 3
potencial de expansão, particularmente na vastidão de terras virgens de alto potencial produtivo dos cerrados.
Lei dos rendimentos e a maximização quantitativa de recursos
O princípio teórico é o da maximização entre indicadores quantitativos baseado em curvas de rendimento decrescente. Inicialmente os insumos são testados em estações experimentais, sob condições as mais controláveis possíveis. Depois, na própria propriedade em condições mais naturais e parcialmente controláveis cujas respostas são avaliadas empiricamente.
No caso dos fertilizantes por exemplo, insumo de maior impacto, o modelo segue mais à risca a "lei dos rendimentos decrescentes" baseadas em curvas de resposta de elementos nutrientes avaliados pela restrição do elemento mais limitante, conforme a lei do mínimo de Liebig (Alcarde, 1998). A recomendação de fertilizantes é feita pelo critério de essencialidade estimado em experimentos que os isolam, fazendo os demais fatores cetaris paribus. Graças a um exponencial incremento das tecnologias, os resultados foram notáveis e a percepção de valor dos ativos reinantes (seu potencial de produção da época) superavam todas as restrições "teóricas" do modelo, não obstante a evidente limitação das funções matemáticas na infinidade de fatores envolvidos nas situações reais da natureza.
Percepção de valor em ambiente competitivo
Todo o panorama se alterou com a crise energética de 1974 e, principalmente, com a globalização e o aumento da competividade dos anos 1980.
À medida que os altos níveis de produtividade vão chegando ao ponto máximo de inflexão da curva teórica de produção e os limites restritivos mais relevantes, a resposta dos insumos se tornam mais sensíveis à interação com outras variáveis, deslocando verticalmente as metacurvas de resposta (Rutton, 1999). Neste cenário, mais realista, a escolha de um mix de insumos e outros ativos dependem muito mais de uma percepção valorativa, sentido de universal, dos fatores envolvidos. Conforme um dos principias pilares da Escola austríaca a tomada de decisão subjetiva do agente homem em tempo dinâmico (veja aqui), a todo momento a viabilidade de um empreendimento depende da correta decisão sobre a alocação dos recursos "brutos", como os fertilizantes e demais insumos agrícolas, que por sua vez depende da percepção de valor e da relação de valores no mercado – objeto da praxeologia (1), em uma infinidade de fatores e circunstâncias que jamais nenhum modelo matemático poderá sequer conjecturar.
Conforme Mises, as decisões são tomadas a partir de uma escala valorativa, ordinal, não quantitativa. O produtor certamente pondera sobre medições cardinais de conformidade e preços, mas frequentemente deve prevalecer uma combinação justa e suficiente de um insumo avaliada caso a caso (Mises, 2010, p. 164). Por outro lado, é preciso ponderar a conveniência dos pontos ótimos de acordo com cenários divergentes que vão se delineando no mercado. As oportunidades de retorno dependem de uma forma de gestão focada na agregação efetiva de valor desses ativos na dinâmica dos respectivos mercados. Dada a complexidade das relações com demais agentes da cadeia 4
produtiva, mesmo a mais simples produção de alimentos in natura para um mercado local exige do agricultor um espírito empreendedorístico na escolha e no uso de seus ativos.
Potencial de valor de ativos em cenários competitivos
O protótipo anterior de custo-benefício permanece útil e necessário. Através dele foi possível sistematizar e contabilizar com grande eficiência o instantâneo atual de um empreendimento agroindustrial, como uma fotografia estática ou até talvez uma previsão simplificada da contribuição de ativos na produção bruta e de retorno econômico futuro, como que em uma montagem de sequência de fotos em um filme. Valendo-se do sistema de partidas dobradas da contabilidade, servem para se ter um diagnóstico atualizado das receitas e despesas, a estimativa do patrimônio líquido e para avaliar regularmente o desempenho do empreendimento agropecuário, por exemplo, junto aos potenciais investidores internacionais.
Mas, com o avanço das técnicas agronômicas associadas à agroindústria e a economia de escala, a resposta produtiva da planta ou animal pela lei dos rendimentos decrescentes exigem o refinamento do uso da tecnologia. Muitos dos fatores antes considerados cetaris paribus em sua curva de resposta tendem a se aproximar da sua assintótica. Fatores antes considerados potencialmente relevantes viraram mera rotina de um produtor mediano. Fatores antes irrelevantes - o "resíduo" estatístico dos experimentos agrícolas, passam a se tornar determinantes. Mais, tornam-se o diferencial para a vantagem competitiva. Exemplo clássico é a adequada composição de vitaminas e antibióticos - a combinação justa e suficiente!, em níveis de miligramas por quilograma nas rações de poedeiras que pode significar o sucesso ou fracasso de um empreendimento avícola. Ou o percentual de granulometria de fertilizantes associado à eficácia operacional de adubadeiras de alta precisão que precisam fertilizar centenas de hectares em uma semana num preciso período favorável de chuvas.
Hoje encontram-se facilmente produtores de soja de médio porte que necessitam de adubadeiras de precisão com GPS que atingem facilmente a casa do um milhão de reais. Por outro lado, investimentos de grande porte podem se tornar obsoletos com a mudança de tecnologia ou do próprio negócio, os chamados sunks costs. Neste cenário, de larga escala e incerteza, ativos-chaves devem ser avaliados não por seu valor atual, mas por potencial futuro em circunstâncias predisponentes e emergentes as mais diversas. O empreendedor deverá calcar suas decisões em circunstância valorativas, universais, as mais distintas, do local e regional, a princípio mais estáveis e certas, aos valores globais, mais incertos e variáveis. Filosoficamente falando são potenciais estimativos, indicativos, de valor de uso e valor de troca, que se intercambiam positiva e dialeticamente (Santos, 2010) [2]. Na moderna gestão contábil são rubricados dinamicamente como superveniência e insubsistência de ativos. Na gestão organizacional, a competência na ordenação de metas e estratégias conforme visões de mundo (Weltanschauung).
A "revolução" da gestão em andamento e intercisciplinariedade
Na verdade, pode-se dizer que o início da revolução tecnológica e de gestão 5
empresarial se iniciou ainda na década de 50, no setor urbano, com o choque de gestão dos americanos junto aos japoneses em decorrência da reconstrução do pós-guerra associado ao parque industrial obsoleto das indústrias bélicas. O toque de Midas que faltava foi a feliz confluência com modelos de investimento massivo de capital (aporte de insumos, mecanização, irrigação, etc.) e, principalmente, uma inédita e bem sucedida organização da atividade empresarial, direcionados em linha-de-produção automatizadas e ciclos de gestão e controle PDCA (plan-do-control-act) [1]. Os novos modelos de gestão, pesquisa e desenvolvimento de certa forma retornaram ao meio rural americano e foram providenciais para o atendimento da demanda de massa de consumo crescente nas décadas seguintes, do famoso babyboom populacional. Focando apenas a feliz aplicação conjunta de duas disciplinas, da estatística e da administração, modelos estatísticos como os de Fisher (1862-1962), engenheiro agrônomo de formação, e de Deming (1900-1993), um dos pais da Gestão de Qualidade, americanos que, ao retornarem aos EUA, ensejaram a revisão de todos os enfoques da cadeia produtiva, agora comandada pelo rei consumidor. Todos os sistemas competitivos tiveram que ajustar seus serviços aos novos critérios de valor, desde os planos de pesquisa agrícola ajustados ao potencial de valor, quantitativo e qualitativo, de novos ativos (como de tratores em substituição a tanques de guerra), até a logística de exploração de minérios e de produtos perecíveis. Desde a exploração do elemento numa mina de fosfato no interior dos EUA até a distribuição de produtos embalados em contêineres nos portos de importação de frutas e flores em Amsterdam.
Ainda nos anos 1950, o memorial Ação Humana, de Mises (2010) [2], dedicou um tópico específico sobre a lei de rendimentos decrescentes, que pode ser aplicada tanto para sistemas agrícolas como industriais. Ali já demonstrava a impropriedade de se fazer inferências sobre fatores complementares de produção visando combinação ótima de fatores causais isolados no rendimento de bens de produção. Dizer que existe uma combinação ótima entre uma certa quantidade de causa a produzindo um efeito A com outra causa b, produzindo B, nada mais afirma que a e b sejam bens econômicos em condições extremamente específicas e pressupõem uso de bens perfeitamente divisíveis, insubstituíveis e em um intervalo de tempo quimericamente homogêneo. Os modelos quantitativos assim formulados já não acrescentam muito à complexidade e interatividade do mundo real. É preciso inferir parâmetros de valor, que na verdade pertencem ao reino da qualidade, categoria da qualia. O novo paradigma exige multidisciplinariedade e integração entre disciplinas ou ontologias regionais. Inclusive entre a s ciências duras e as humanas.
Indicadores e criação de valor em dois sistemas produtivos brasileiros
Efetivamente, num mundo dinâmico e cada vez mais incerto, não é mais possível fazer inferências de pesquisa e desenvolvimento em bases matematizantes, paradigma mecanicista estrito. O uso de escalas valorativas, apreciadas na devida ordem ontológica das coisas certamente pode dar um norte mais seguro, não apenas ao empreendedor individual, mas também aos demais agentes envolvidos, inclusive como moderador dos apetites intervencionistas do estado "gestor". 6
Atualmente a contabilidade empresarial vem buscando indicadores de desempenho que sejam capazes de identificar sinais de mudanças antes que estas ocorram. Baseando-se em sistemas de mensuração financeira relacionados a estrutura de capital que criam ou destroem valores, a moderna contabilidade empresarial busca identificar indicadores de desempenho mais duradouros conforme os segmentos do mercado explorados. Alguns exemplos: a GBV (Gestão baseada em valor) (Batalha, 2004; Assef Neto, 1999), o Market Value Added – MVA (Valor adicionado do mercado) (Malvessi, 2000) e Created Shared Value - CSV (Criação de valor compartilhado) (Senge, 2010). Acredito que estes autores representam o status questione dos métodos de criação de valor. [3] [4]
Agronomicamente, as boas práticas agrícolas associadas a infraestruturas de escoamento para exportação e a padrões de certificação da atividade produtiva, ao contribuírem para um cenário favorável de integração dos elos da cadeia produtiva, permitem não somente o deslocamento dos pontos de maximização da produção determinado pelos potenciais do germoplasma, mas podem deslocar escalarmente, verticalmente, as possibilidades de resposta em metacurvas de produção, propiciando saltos qualitativos de ganhos em termos de melhores arranjos da cadeia produtiva num agropolo de produção e, consequentemente incrementos na competividade internacional (Rutton, 1999).
A título de exemplificação quanto à divergência na percepção de valor de ativos e sua interferência no deslocamento de metacurvas, tomemos apenas o fator "fertilizante" em dois cenários bem distintos, em duas tipologias antitéticas de dois polos do agronegócio brasileiro: a agricultura de precisão de commodities anuais, representada pelo milho e soja no MT; e a fruticultura orgânica perene, representada pela uva e manga no polo de Petrolina-PE.
Nesses dois exemplos propomos um diagnóstico preliminar de avaliação baseada em indicadores também extremos, sugerimos alguns indicadores orientativos que poderiam melhor subsidiar o agronegócio (Pace, 2003).
Da avaliação desses dois macro indicadores, seria possível detectar diferenças decisivas na rentabilidade entre os dois sistemas, resultantes do trade-off entre a elasticidade renda do consumidor e a elasticidade de custo de um insumo. Daí se poderia elencar as oportunidades e riscos da atividade em cenários de curto e longo prazos.
Entre um e outro sistema aqui idealizado, naturalmente existe uma infinidade de arranjos produtivos intermediários em que outra inumerável multiplicidade de agentes produtivos irá equacionar. Eles identificarão as concretas oportunidades de criação de valor, caso a caso.
Paradigma Produtivista vs Paradigma Orgânico (ou) Integrado
Ambos os sistemas produtivos são altamente dependentes de ativos-chaves: respectivamente a semeadera-colhetadeira e a fertirrigação. Entretanto as oportunidades de retorno dependem de uma forma de gestão focada na agregação efetiva de valor desses ativos na dinâmica dos respectivos mercados. 7
No primeiro caso, temos uma cultura de sequeiro convencional cujas características agronômicas em tudo favorecem a produção em larguíssima escala e o atendimento à enorme demanda de alimento "bruto", as commodities soja e milho (rações), para o atendimento do consumo humano de proteína animal. Aqui, a média a resposta em plantios nessa escala ainda é linear em virtude do elevado potencial genético de produção nos trópicos mas pode sofrer duros reverses com veranicos superiores a 10 dias durante o florescimento. Nessa faixa crescente, a cultura em si ainda obedece a lei dos rendimentos decrescentes quanto ao input geral de insumos agrícolas no sistema produtivo mas provavelmente parte expressiva da criação de valor pode estar sendo limitada pelo esgotamento de jazidas de elementos como potássio. Particularmente decisivo é o nutriente nitrogênio, elemento volátil cujas perdas e alto custo energético são minimizadas no Brasil pelo fantástico processo de fixação biológica de microorganismos (uso de inoculantes em leguminosas). Esta inovação agregou tanto valor de uso à cultura da soja que mesmo as dificuldades de escoamento da produção ou a alta produtividade e os preços favoráveis do milho nos últimos anos – uma cultura concorrente, não desbancaram o vertiginoso aumento de área daquela leguminosa. Mesmo as previsões de plantio mais otimistas foram superadas pelas relações de troca consolidadas no mercado internacional entre as duas commodities. Foram estas relações de troca, efetivadas na dinâmica dos preços internacionais, que deram a prova concreta do poder de geração de riquezas de uma mera comoditie em um país "subdesenvolvido".
Neste cenário, os macroindicadores devem se nortear no atendimento ao consumo da grande maioria da população (no jargão do business americano o mercado B6B, os seis bilhões de pobres do planeta). Alguns indicadores orientativos seriam: integração de larga escala do manejo biológico do solo com a produção industrial de inoculantes (biofábricas), melhoria da eficiência industrial dos grânulos de fertilizantes monitorados por análises laboratoriais do fertilizante, do solo e da planta, manejo de glebas por georeferenciamento e zoneamento agrícola [5].
Algo diversa é a situação de plantios de menor escala, irrigados, e de culturas mais próximas do potencial genético de produção como da cultura da uva e de horticultura em geral, e, sobretudo, nos sistemas orgânicos ou da produção integrada. A resposta da cultura pela lei dos rendimentos decrescentes aproxima-se rapidamente da sua assintótica. As diferentes opções de manejo são mais difíceis de quantificar, principalmente a longo prazo. Quanto mais a produção aproxima-se da assintótica, maior o grau de incerteza entre insumos complementares, por exemplo, entre a resposta marginal de um fertilizante (elemento químico) solúvel para fertirrigação e um fertilizante foliar. Considerando o alto valor do produto no mercado mais seleto (exemplo: frutas certificadas para exportação), na dúvida, o produtor estará disposto até a usar os dois concomitantemente, sem pensar na racionalidade matemática do uso. No sistema orgânico busca-se a disponibilidade gradual e equilibrada, visando a sanidade da planta e a construção mais perene da fertilidade do solo, além das funções nutricionais.
Nos pomares mais antigos, com o decréscimo gradual do potencial genético de produção, a preocupação do produtor com "custo de produção" convencional pode se tornar irrelevante levando-o, por exemplo, à renovação antecipada de pomares 8
(insubsistência de ativo) conforme expectativa de rentabilidade de uma potencial cultura substituta. Dependendo do trade off entre valor de uso futuro (atendimento a mercado local ou de um sofisticado consumidor europeu) e o valor de troca efetivo (consolidação das relações de troca no futuro), a destruição de um valor especifico pode resultar em criação de valor do empreendimento como um todo, a longo prazo. A decisão do produtor depende da melhor acepção de valor embutida em sua atividade, optando ora por criação de valor, ora por destruição de valor ou, contabilmente falando, superveniência de ativo e insubsistência de ativo.
Neste cenário boa parte do mercado pode continuar no atendimento do consumo da população. Entretanto, empiricamente observa-se a inviabilidade da agricultura estritamente orgânica ou "ecológica", em seus baixos níveis de produtividade, o que não ocorre com sistemas orgânicos mais flexíveis, como dos programas de Produção Integrada (Andrigueto, 2004). Alguns indicadores orientativos incluiriam: certificação orgânica e da Produção Integrada, manejo biológico do solo e da bacia hidrográfica como um todo, manejo de "humosfera" (Canelas, 2005), assistência ao manejo técnico personalizada a interpretação customizada de dados de análise foliar, entre muitos outros.
O falso conflito de paradigmas
Na história recente da política agrícola brasileira, infelizmente o que predominou foi a antinomia ideológica entre "capital" e "trabalho" levando a uma ruptura institucional, com a criação do MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário e a radicalização dos discursos entre agricultura familiar e empresarial e a grande indecisão e desorientação na canalização dos esforços estratégicos e financeiros para o agronegócio (Agrianual, 2010). A falta de critérios de avaliação do empreendimento agropecuário, nos seus diferentes arranjos produtivos, inclusive na concepção de valor de mercado dos ativos dessas atividades, tem levado a grandes perdas no fomento do setor. No segmento do seguro agrícola [6], até a pouco tempo as agências bancárias viam com desconfiança o financiamento da cadeia produtiva orgânica e praticamente desconhecem a Produção Integrada. Apenas muito recentemente adotou-se o milho como commodity nas bolsas internacionais e a avaliação de valor para acionistas em empresas agropecuárias de capital aberto ainda não se concretizou plenamente. Recursos públicos são canalizados para analises genéricas de carbono na atmosfera em nome de hipotético "aquecimento global" mas faltam recursos para investimento de longo prazo nas boas práticas agrícolas em bacias hidrográficas sujeitas a seca em São Paulo. Investiu-se bilhões de dólares na extração de petróleo (e também adubos nitrogenados derivados deste) de alto custo do pré-sal no Rio de Janeiro e subestima-se o potencial de valor de baixíssimo custo da microbiologia do solo em todo o país. Cenários que demonstram falhas no alinhamento de estratégias devido ao uso de indicadores obsoletos. São equívocos da Weltanschauung, visões de mundo incapazes de prognosticar os potenciais da atividade empresarial agrícola no ambiente de constantes mudanças.
Perspectivas 9
Apesar de todas as dificuldades, o agronegócio brasileiro deu provas de inusitada competência provendo o país de riquezas consistentes por décadas.
Particularmente relevante para a competividade internacional do setor foi a incorporação do chamado "serviço natural" da microbiota, em que o nitrogênio do ar é introjetado na planta por bactérias previamente inoculadas nas raízes da soja, via simples mecanismo de aderência física às sementes. Essa tecnologia barata e 100 % brasileira permite a economia anual de U$ 8 bilhões em nitrogenados. Estima-se potencial de U$ 3 trilhões (!) pelo uso de microorganismos num futuro não muito distante, em todo o planeta (Nature, 2001).
Recentemente a Embrapa desenvolveu sementes de feijão OGM, resistente à temível virose do mosaico, abrindo espaço para muitos outros potenciais de uso incorporados nesse singelo ativo em pequenas propriedades e mercados domésticos.
Adicione-se a isso o potencial de criação de valor de ativos com impressoras 3D, que permitirão usos inimagináveis, inclusive customização total e fabricação própria de componentes de irrigação e peças de máquinas e implementos agrícolas em geral.
Intuitivamente o produtor-empreendedor procura equacionar a melhor combinação de ativos desde a escolha do local de plantio até o criterioso planejamento dos fatores de produção conforme cenários físicos, institucionais e até culturais, de oportunidade e riscos futuros. Mais do que assessoria tecnicista, de alguma forma precisa racionalizar o critério de ordenação dos valores técnicos, econômicos e sociais envolvidos, até para que possa fazer valer seu potencial de contribuição no desenvolvimento de uma sociedade, respeitando a livre iniciativa, a propriedade e os autênticos meios de agregação de valor econômico. Um algo mais que "lei" mecanicista alguma pode mais oferecer.
_____________________________
Murilo Carlos Muniz Veras é engenheiro agrônomo, mestre em fitotecnica pela UFLA, especialista em filosofia (UnB) e fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Atualmente atua na gestão de laboratórios de análises de identidade e qualidade de insumos agrícolas.
[1] praxeologia: A praxeologia (de práxis) é a ciência geral que se dedica ao estudo da ação humana, considerando todas as suas implicações formais. A proposição básica, o primeiro axioma da Praxeologia, é que o incentivo para qualquer ação é a insatisfação, uma vez que ninguém age a não ser que sinta alguma insatisfação e avalie que uma determinada ação venha a melhorar seu estado de satisfação, ou seja, aumentar seu conforto, sensação de alegria ou de realização, diminuindo, portanto, seu desconforto, frustração ou insatisfação. Mises denominou o conceito de ação humana de axioma praxeológico número um, no sentido de que a partir dele podem-se deduzir as principais leis comportamentais que regem a economia (Iorio, 2011). 10
[2] dialética positiva: a filosofia de Mario Ferreira dos Santos é dita positiva no sentido de se debruçar sobre a realidade dicotômica ou antinômica sem perder o sentido de unidade subjacente que subsiste universalmente (percepção de princípios e essências não contingentes) e concretamente nas ações humanas (com creter = construir com), no porvir existencial. No presente artigo o dualismo metodológico e conceitual entre o valor de uso e valor de troca visa dar um melhor direcionamento ou redirecionamento das decisões empresarias em diferentes cenários do agronegócio.
[4] PACE, E.S.U; BASSO, L.F.C.; SILVA, M.A. RAC, Indicadores de Desempenho como Direcionadores de Valor. v. 7, n. I, Jan./Mar. 2003: 36-65.
[5] O georeferenciamento, conjugado com dados meteorológicos, pode ser um excelente instrumento para estabelecer épocas de plantio mais favoráveis nos períodos críticos de desenvolvimento da cultura. O Brasil, através do Programa de Zoneamento Agrícola, foi o pioneiro, estimando melhores épocas de plantio em três categorias de solos ao nível de municípios nas culturas de milho e soja desde 1998. As informações geradas permitiram reduzir riscos de seca crítica e a priorização dos investimentos nos municípios mais favoráveis.
[6] Entre os produtores de commodities, o Brasil foi um dos últimos países a adotar o seguro agrícola privado que atualmente atende menos de 10% da área de milho e soja.
Bibliografia adicional citada:
ALCARDE, J.C. GUIDOLIN, J. A., LOPE, A. S. Os adubos e a eficiência das adubações. ANDA. Boletim Técnico, São Paulo, n. 3 1998. Disponível em http//www.anda.org.br/boletins/boletim_03.pdf. Aceso em 19 mar 2014.
ANDRIGUETO, J. R.; KOSOSKI, A. R. (Org.). Documento de Estruturação e Composição da Política de PI e do Sistema Agropecuário de Produção Integrada. 2004/05. Brasília/DF. MAPA. ANUÁRIO BRASILEIRO DA FRUTICULTURA. 2004. 136p.
ASSAF NETO, Contabilidade Baseada em Valor. Anais do VI Congresso Brasileiro de Custos, SP, FEA-USP, julho/1999.
BRASIL, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Instrução Normativa nº 10, de 6 de maio de 2004, que dispõem sobre a classificação e os registros de estabelecimentos e produtos, as exigências e critérios para embalagem, rotulagem, propaganda e para prestação de serviço, bem como os procedimentos a serem adotados na inspeção e fiscalização da produção, importação, exportação e comércio de fertilizantes, corretivos, inoculantes e biofertilizantes, destinados à agricultura. Diário oficial da União, 12 de maio de 2004. Brasília, DF.
CANELLAS, L. P.; SANTOS, G.A. Humosfera : tratado preliminar sobre a química das substâncias húmicas Luciano Pasqualoto Canellas e Gabriel Araújo Santos. – Campos dos Goytacazes : L. P. Canellas , G. A. Santos, 2005. 309 p.: il. ISBN 85 - 905835 - 1 -1. disponível em http://www.uenf.br/Uenf/Pages/CCTA/Lsol/
MISES, L. von. Ação Humana (tradução de Townsed...), 3ª ed. Ed. Liberal, 2010. 980 p.
SENGE, P. Creating shared value. Harvard Bussiness Review, v.x 2010. 11
SANTOS, M.F. Análise decadialética de valor na economia. In: Lógica e dialética, ed. Paulus, 2009. p. 285-297.
SOUZA FILHO, M. M; BATALHA, M.O. O indicador EVA (Valor Econômico agregado) e seu potencial de integração com o sistema de custeio ABC, como ferramenta de gestão para a criação de valor. XI SIMPEP - Bauru, SP, Brasil, 08 a 10 de novembro de 2004.
Nenhum comentário:
Postar um comentário