segunda-feira, 30 de dezembro de 2013



UMA ESPECULAÇÃO SOBRE O AMOR CRÍSTICO

                                                             Murilo Moreira Veras


O que é liberdade? É estar livre dos embaraços que a existência nos traz.  Mas o que isso implica na filosofia  bergonsoniana? Begson é um pensador que pesquisou sobre a linha do tempo, sua duração e como tal afeta o ser na sua mobilidade existencial.
O que significa o amor cristão? Diria que é o sentido de agir fraterno. Este, sim, o traço mais característico do cristianismo. Talvez esta seja a vocação do verdadeiro cristão: elevar o ser humano a uma categoria que ultrapasse sua própria humanidade, para que ele possa transmitir ao ser-objeto que será amanhã, isto é, no horizonte do devir. Assim, o ser humano terá sua vida projetada para depois pelo que o ser do ente passa a ser objeto do próprio ente na sua transitoriedade ontológica.
Essa transição fará do homo sapiens o homo objectus ou o homo res, ou seja, o ser do homem colocado na condição de ser objetivado e não pensado.
Ora, nesse estado de coisa como posicionar o chamado amor cristão, ou crístico, no sentido ontológico, quando o fenômeno da capacidade propriamente crística de compartilhamento fraterno está depositada no objeto da relação ser-estar-no-mundo, o sujeito desvinculado de sua passividade por ser possuído?
A relação ser-no-mundo heideggeriano terá de sofrer mudança na categoria de Desein. O mundo terá de se adaptar à sua nova forma que seria através da hominização do objeto do ente, feito ser na categoria ontológica, não propriamente do ser, mas do objeto ontologizado, ou seja, o objeto pensado.
O amor crístico do objeto pensado é a objetivação do pensar desprovido de sua imanência de humanidade. É a transcendência do pensamento-objeto, o pensamento maquínico, porque a potência do ser passou para o ser da potência, ou o humanismo coisificado. É como transcender na imanência do ser objetivado ou objetivante.
Transformado o Desein no ser imanentizado pela objetivação do humano para o pós-humano, a cristianização se dará por desconstrução axiológica, quer dizer, o objeto seria ou se tornaria valorizado para obter sua condição de comunhão crística.
O homem ou a mulher, sem sua humanidade imanente, passaria a assumir sua objetividade transcendente e agiria como o novo homem embebido de transcendência objetivada, ou, em outras palavras, em termos de simbologia mais avançada, o ser humano já agora desumanizado adquire a feição de materialização cósmica que o interligaria à infinitude, onde há de haver nova forma de Desein, ou seja, de estar-no-mundo, embora faça com que sua humanidade se apegue demais ao mundo cuja imanência infantiliza suas potencialidades transcendentes.
Ora, se o cristianismo se fundamenta em  (des) essencializar o humano para transformá-lo numa nova categoria do ser pela qual o cristão propugna por ser um novo homem, essa transcendentalidade do objetivado pode constituir a resposta para o mundo e sua consequente renovação e assim o ser-para-a-morte heideggeriano pode desaparecer para dar lugar ao ser-para-a-vida, porque a morte passa a ser a transitividade da espiritualização da matéria pela vacância do eu decorrente de sua objetivação que é a matéria transcendentalizada, ou seja, o novo homem  desmaterializado da matéria. Não se trata aqui de nenhuma doutrina cabalística, mas de uma hermenêutica escatológica para o ser humano ao elevar-se de categoria mediante processo sistemático e quicás fatalístico de materialização espiritual. Isto porque o avanço dos instrumentos tecnológicos será cada vez tão grandioso que a mecanização do mundo se tornará inevitável. A máquina pensante será aos poucos incorporada ao ser humano e o pensar humano será um pensar maquínico com desdobramento e vocação cósmicos, ou seja, capaz de se interligar aos padrões estelares e galácticos.
É, pois, nesse estágio que o sêmen do cristianismo há de assumir seu papel e impor sua razão fundamental não apenas como “a luz do mundo”, ou o “o sal na terra”, mas como “a luz, o lume do universo” – o sal que irá se espalhar por todos os redutos conhecidos e desconhecidos, o sêmen crístico que existe e sempre existiu no Uni-Verso  do qual nosso homo terrenus tanto precisa, pois sua visão apenas telúrica tem materializado o  seu humanismo,  tornando-se cego, em face de seu desbragamento orgíaco pelo materialismo sem transcendência.
Esse trânsito do sujeito para o objeto pela desumanização transcendente corresponde à grande solução para nossa civilização essencialmente materializada por excesso de afirmação subjetiva, dado que o ser extravasou suas potências e precisa sublimar-se pela elevação através da desmaterialização do eu-ser-no-mundo em direção da transcendentalidade  do mundo no eu-ser, ou na fórmula mesmo que insólita – o homem pensando como máquina e a máquina pensando como homem, numa simbiose metafórica em busca da perfeição crística absoluta, onde reside, enfim, a sabedoria cósmica do infinito.  




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